Na sociedade moderna, a noção de que o amor romântico é um dos pilares da felicidade pessoal persiste fortemente. Desde cedo, somos expostos à ideia de que encontrar um parceiro é parte natural da vida adulta, sendo que o casamento e a estabilidade amorosa são considerados símbolos de sucesso e maturidade. Ao longo do nosso crescimento, somos expostos a filmes, músicas e até mesmo expetativas familiares que reforçam o papel central de um relacionamento amoroso na nossa trajetória pessoal.
Assim, para muitas pessoas, a realidade de ser solteiro na fase adulta pode ser vivida com sentimentos mistos, envolvendo desde a valorização da liberdade até o desconforto gerado pelas pressões sociais e culturais. No entanto, ser solteira ainda é visto com estranheza ou como uma situação transitória a ser “corrigida”, o que pode gerar um sentimento de inadequação e dificuldade para aqueles que optam ou acabam por ficar solteiros.
A dificuldade de ser solteiro, principalmente na fase adulta, não reside necessariamente na solidão, mas nas pressões sociais e culturais que envolvem o estado civil. Com o avanço da idade, especialmente após os 30 anos, a sociedade começa a questionar o status de uma pessoa solteira de maneira intrusiva com perguntas como “Quando vais arranjar alguém?” ou “Por que ainda está solteiro(a)?” são comuns e carregam uma mensagem subliminar: estar solteiro é, de alguma forma, um fracasso em um aspeto fundamental da vida. Visto que, estar solteiro num mundo que glorifica relacionamentos amorosos pode ser um desafio.
Embora as relações amorosas não sejam o único caminho para uma vida plena, a sociedade, muitas vezes, impõe uma visão de que a vida só está “completa” quando se tem um parceiro. Isso faz com que muitas pessoas solteiras, especialmente na fase adulta, enfrentem um estigma silencioso.
A pressão para encontrar um par não vem apenas de familiares ou amigos, mas também de uma cultura mediática que valoriza o amor romântico como o ápice da realização pessoal. No entanto, esse tipo de pressão não afeta apenas as mulheres, como era mais evidente no passado. O problema não é estar solteiro, mas o modo como a sociedade lida com essa questão. Há uma tendência em associar a ausência de um relacionamento à solidão ou ao fracasso.

Contudo, muitos adultos solteiros escolhem essa condição conscientemente, seja para se dedicarem a suas carreiras, para explorar a sua individualidade ou até mesmo para fugir das complexidades dos relacionamentos modernos, que, em muitos casos, não atendem às expectativas idealizadas. Podem optar pelas oportunidades que podem surgir, sendo uma fase que pode ser vivida com liberdade, permitindo maior foco no autoconhecimento, na exploração de interesses pessoais e no cultivo de relações profundas com amigos e familiares. Estar solteiro não precisa ser encarado como um período de espera até que o “verdadeiro” propósito de vida – o relacionamento amoroso – se concretize. Pelo contrário, pode ser um espaço para crescer e descobrir o que realmente importa para cada indivíduo.
Outro ponto a ser considerado é o impacto psicológico dessa pressão. A constante busca por um parceiro, impulsionada pela sensação de “falta” que a sociedade nos faz sentir, pode levar à ansiedade e até à depressão. Para muitos, a solidão que, de forma natural, pode surgir em certos momentos da vida é amplificada pela ideia de que, se estiverem num relacionamento, esses sentimentos seriam automaticamente dissipados. Isso cria uma perceção distorcida do que é necessário para se sentir completo como indivíduo.
Desta forma, a felicidade e a realização pessoal não estão exclusivamente atreladas ao amor romântico. O que precisamos é aprender a valorizar as várias formas de conexão, seja consigo mesmo, com amigos, com a comunidade ou, eventualmente, com um parceiro. A verdadeira dificuldade não é ser solteiro, mas viver em uma sociedade que ainda se recusa a ver essa condição com a naturalidade e a aceitação que ela merece.
Por: Filipa de Freitas
Psicóloga Clínica com interesse nas áreas de ansiedade, luto, perturbações de humor, igualdade de género, violência domestica e de género.

Deixe um comentário