Brincar é um assunto sério… Ao contrário do que muitos pais e educadores (por vezes) tendem a pensar, brincar não é uma perda de tempo, mas sim uma das atividades mais importantes praticadas durante a infância.

A verdade é que brincar promove o desenvolvimento das crianças, tanto a nível emocional como cognitivo, em particular, se o fizerem em grupo ou com os cuidadores (como por exemplo, com os pais e/ou educadores).

Brincar durante a infância, estimula uma série de competências que de outra forma dificilmente o serão, tais como a criatividade e imaginação. Ler uma história, brincar com bonecos, fazer construções, entre outras, constituem um desafio para a criatividade e imaginação das crianças. O excesso de brinquedos hoje em dia, e o próprio consumismo, acabam por “matar” a possibilidade de criatividade e imaginação uma vez que dado o excesso de oferta e o excesso de brinquedos, facilmente estes perdem a sua “magia” e interesse. Acaba por ser mais positivo as crianças terem menos brinquedos mas que sejam não só adaptados à idade e desenvolvimento da criança como também didáticos (a título de exemplo, baldes, caixas, construções como legos ou blocos de madeira) do que serem brinquedos muito elaborados mas que têm apenas uma função, não permitindo desta forma que a criança puxe pela imaginação para desenvolver a sua própria brincadeira. Isto dito, muitas vezes o problema não reside apenas no tipo de brinquedos disponíveis mas sim na quantidade, uma criança com excesso de brinquedos acaba por não achar piada a nenhum deles.

Ilustração que demonstra o brincar na infância

Brincar permite também desenvolver e melhorar a capacidade de autoconhecimento. É importante que a criança tenha liberdade para explorar e descobrir o mundo que a rodeia, correr, saltar, cair, pois só desta forma conhece melhor o seu corpo e os seus limites.

É ainda através da brincadeira que aprendemos uma competência fundamental para o resto da nossa vida: capacidade de negociar. Ao brincar com os outros, existe sempre o conflito e com isto a necessidade de o resolver para que a brincadeira continue. Assim estabelecemos regras e definimos objetivos, mas para que isto seja possível, tal implica negociação, comunicação e respeito. Ora, todas estas competências, em diferentes níveis, serão absolutamente fundamentais ao longo de toda a nossa vida, quer para as relações interpessoais quer para o nosso bem-estar.

Mais: brincar auxilia o nosso sistema imunitário. Todas as brincadeiras que exijam movimento (apanhada, escondidas, etc.) contribuem para a atividade física, o que para além de prevenir o excesso de peso (condição cada vez mais comum nas crianças Portuguesas, e não só, devido ao sedentarismo) melhora o sistema imunitário, endócrino e cardiovascular.

Brincar melhora a saúde mental e as relações, na medida em que estar em grupo, socializar, aprender a comunicar e estabelecer laços de amizade e promover as interações sociais, previne o isolamento e aumenta os níveis de felicidade, prevenindo assim doenças como a depressão na infância e a ansiedade (problemáticas cada vez mais comuns em crianças cada vez mais novas). Aprender a ouvir, partilhar, respeitar limites, impor limites, cumprir regras, entender as diferenças dos outros em relação a si e vice-versa, são tudo competências essenciais para viver saudavelmente em sociedade. Para além de tudo isto, o brincar aumenta a necessidade de trabalhar em equipa, aprender a integrar-se e a relacionar-se com os outros, aprender a pedir ajuda e a perceber a importância do coletivo.

Brincar estimula a atenção e desenvolve o raciocínio. Muitas vezes, durante a brincadeira e jogos, as crianças deparam-se com problemas que têm de ser resolvidos, o que as obriga a pensar e encontrar uma solução. Crianças com mais criatividade e imaginação tendem a encontrar melhores soluções. Ademais, crianças que estão habituadas a brincar, frequentemente prestam mais atenção às aulas.

Ilustração que demonstra o brincar na infância

Por fim, mas não menos importante, brincar ensina a lidar com a frustração. Durante uma brincadeira, a criança não só se diverte, como vai ganhando capacidades emocionais, como supra referido. Quando perde, tem de aprender a gerir a frustração, tem de conseguir adaptar-se às circunstâncias e estas aprendizagens vão tornado-a mais resiliente. A resiliência é uma das competências mais importantes ao longo da nossa vida para os inúmeros desafios inerentes à mesma. Termos a capacidade de ultrapassar os desafios da vida, torna-nos mais felizes, mais capazes, mais confiantes e mais aptos.

Por tudo isto, brincar é uma das ferramentas mais poderosas da infância. Permite desenvolver competências que são absolutamente fundamentais para um crescimento e desenvolvimento saudável e harmonioso. É triste e preocupante observar a tendência atual do aumento do uso de ecrãs (que em idades mais precoces não traz qualquer benefício, muito pelo contrário), e a diminuição do brincar. Hoje em dia, as crianças têm mais brinquedos do que nunca, mas nunca desvalorizaram tanto a atividade de brincar. É uma “seca”, “não tenho nada para fazer” , “não gosto de brincar com nada”. Enquanto sociedade, estamos a retirar uma ferramenta poderosa das infâncias das nossas crianças que não tem como ser substituída e cujos efeitos negativos já se observam (no mal estar geral nas nossas crianças e jovens).

Enquanto sociedade, temos de dar um passo atrás e voltar a redefinir valores e expectativas. Temos de deixar as crianças serem crianças! Há tempo para tudo, menos para voltar atrás.

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