O uso excessivo das tecnologias por parte dos mais jovens é uma questão que me preocupa profundamente.
Observo uma tendência alarmante de crianças cada vez mais novas a interagirem de forma pouco saudável às várias ferramentas tecnológicas à sua disposição. Diga-se, aliás, que o problema não se limita aos adolescentes, estendendo-se a faixas etárias mais precoces. É perturbador testemunhar crianças totalmente absorvidas pelos ecrãs, negligenciando relações interpessoais reais em prol das virtuais.
Os efeitos adversos que resultam da má utilização da tecnologia são numerosos: desde a falta de autoestima e capacidades sociais até dificuldades de aprendizagem e diagnósticos inadequados, como o excesso de casos (mal) identificados de PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção).
Dada a dimensão e impacto do tema, esta questão exige uma abordagem séria por parte de todos os intervenientes, incluindo pais, educadores e profissionais de saúde. E embora reconheça os benefícios das tecnologias, não podemos descorar os danos que podem causar quando utilizadas sem moderação e supervisão adequadas.
De facto, a mudança de comportamento das crianças diante o avanço tecnológico é evidente, e as preocupações com a saúde mental e física são justificadas, daí existir uma grande discussão à volta dos riscos e benefícios do uso de tecnologias pelas crianças.

Se, por um lado, as tecnologias providenciam o contacto com novas ideias, muita informação e jogos interativos, por outro lado, o uso excessivo destes dispositivos digitais levanta muitas preocupações a nível da saúde mental e física das crianças e jovens. Algumas dessas preocupações incluem o impacto na alimentação, sono e comportamento. O facto de se verificar um aumento do tempo de exposição a conteúdos não educacionais leva a que haja menos tempo para a leitura e aprendizagem, o que causa um impacto negativo no desenvolvimento das crianças, principalmente a nível cognitivo e da linguagem. O uso excessivo dos dispositivos digitais pode condicionar também um maior risco de obesidade, devido ao aumento do sedentarismo, a práticas alimentares pouco saudáveis como o “snacking” durante a utilização de dispositivos eletrónicos. De acordo com vários estudos, pode até alterar os padrões de sono, refletindo-se pelo aumento da resistência na hora de dormir, pelo atraso do início do sono, pesadelos, pela diminuição do número de horas de sono por noite e na diminuição na qualidade do sono, provocada pela exposição à luz azul dos ecrãs e pela diminuição dos níveis de melatonina. Além disso, pode levar à alteração de comportamento, com agressividade e desatenção, em particular quando as crianças e jovens são expostos a conteúdos inadequados ou inseguros.
O uso excessivo de ecrãs tem sido também associado a diagnósticos errados de PHDA em jovens. A constante exposição a dispositivos eletrónicos pode gerar sintomas semelhantes aos do PHDA, como distração e impulsividade, complicando o diagnóstico preciso. Portanto, é crucial que os profissionais de saúde considerem o contexto do uso de ecrãs ao avaliar os sintomas e realizem uma análise cuidadosa para evitar diagnósticos incorretos.
Em Portugal, as crianças com idades compreendidas entre os 3 e os 5 anos, passam em média 154 minutos (ou seja, 2h e 30 min!!) por dia em frente a ecrãs. Noto que os pais, educadores, professores se preocupam com este tema, e existe a queixa de que os filhos/alunos estão viciados, no entanto, apesar de existirem orientações relativas ao uso saudável destes dispositivos, raramente estas são postas em prática. Em consulta esta problemática aparece recorrentemente, mas dificilmente se mudam hábitos. Nas crianças mais novas, os impactos negativos deste uso não saudável são ainda mais acentuados e com repercussões mais duradouras, daí ser tão importante levar este problema mais a sério. Isto é tão grave que muitas vezes as pessoas já não imaginam como seria a realidade sem estes dispositivos. A título de exemplo, já tive situações onde os próprios pais se questionam sobre quais as alternativas existentes – “Ah, mas se não lhe der o telemóvel ele/a vai-se entreter com o quê?”; “Se ele/a não estiver no telemóvel não consigo fazer nada em casa! É impossível!”. A estas dúvidas, acabo normalmente por responder com algumas perguntas simples: “E como era antes de existirem os telemóveis/ tablets? As crianças entretinham-se com o quê?”. É importante percebermos que de facto os dispositivos eletrónicos são viciantes e distraem-nos durante um período longo de tempo. Na realidade, funcionam como uma “droga” para o nosso cérebro, que provoca uma dependência séria. Mas mais do que isso, não devemos esquecer que estes dispositivos retiram às crianças a oportunidade de serem criativas, de brincarem, de se entediarem (que é tão importante ao contrário do que se possa pensar!), de socializarem, e tantas outras competências que sabemos serem essenciais para um desenvolvimento saudável e harmonioso.
O grande desafio dos pais e educadores (e na realidade, da sociedade em geral), passa por promover uma gestão equilibrada do uso de ecrãs, incentivando atividades offline para garantir um desenvolvimento saudável e uma conexão interpessoal genuína nas gerações futuras. Como em tudo na vida, o problema não está necessariamente na ferramenta em si, mas no uso que lhe é dado (e, no caso particular das tecnologias, na forma como nos tornamos voluntariamente dependentes das mesmas).
Por: Mafalda Hormigo
Psicóloga Clínica com maior foco em crianças, adolescentes e jovens adultos e autora deste ebook.

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