Imaginas-te a viver com um vazio constante? Com um desejo de ser uma pessoa coesa e sentires te aos estilhaços? Que por muito que estejas acompanhado/a parece não ser suficiente?
Não são realidades distantes para quem padece de perturbação borderline…
Segundo a terapia psicodinâmica, a estruturação de personalidade borderline equivale a um estado limite, que representa um estado mais evoluído que a psicose, em que há dissociação da realidade, com alucinações e delírios, porém não se evolui para atingir a complexidade de uma neurose com fixações específicas.
O pensamento é disperso, pouco coeso, dando lugar a por vezes crenças relacionadas com paranóia, de que se está a ser perseguido ou prejudicado de alguma forma. Há uma representação negativa do próprio e positiva dos outros, o que faz sentido numa fase inicial com a idealização do objeto amado, que depois dá origem a uma desidealização do mesmo.
É verdade, passa-se do aparente amor para o aparente ódio. A questão é que para amar, temos de respeitar além da própria existência e este representa o grande desafio, pois o objeto amado passa a ser alvo de raiva quando não satisfaz as necessidades de empatia e afeição na medida desejada, para conseguir regular a pessoa com borderline.
Enquanto o próprio não se regula, não há relação que o substitua COMPLETAMENTE, daí as competências de regulação emocional serem fundamentais para uma vida equilibrada e satisfatória, para tornar possível um amor que não seja baseado em apego ou dependência.
Em relação ao ódio, também pode representar uma forma de a pessoa com borderline se odiar a ele próprio quando se apercebe de que parte de si escolheu aquela pessoa e, ainda assim, não resolveu e não conseguiu a coesão de identidade.
O estado de indiferença é dificilmente atingível por causa da intensidade emocional que o carateriza. O que despoleta na maior parte das vezes picos de intensidade em momentos em que o próprio perceciona rejeição, desvalorização como formas de abandono.
A presença física do outro é uma forma de abandono se não tiver conteúdo, ou seja se faltar alguma forma de valorização e acolhimento. Perante críticas, por vezes necessárias, a pessoa com borderline ativa se com os seus modos esquemáticos, percebendo-se em perigo e as facetas de identidade entram em colisão. Como se sente desamparado, pode ferir-se ou ferir a pessoa que tem disponível verbalmente, com raiva, ira numa intensidade escalada.
Nem tudo é mau, sentem de uma forma única emoções prazerosas, conseguem alcançar um nível de empatia elevado, emocionam-se facilmente e são grandes apoios sem ser preciso pedi-lo. O reverso da moeda em emoções menos prazerosas representa grande dor… Subjacente a isto, está o receio de ficarem entregues a própria sorte, entendendo se como não merecedores, não dignos, acreditando ser defeituosos pela sua gestão emocional tão acentuada de picos – devido a descrições críticas de outros, que depois internalizam achando ser medida do seu valor.
A solidão existe na mente de uma pessoa com borderline sem possibilidade de solitude, em que haja crescimento para além do outro.
Para intervir neste processo, este é um dos caminhos a percorrer para ressignificar momentos sós, trabalhando a angústia de separação e da perda do outro (pois quando está ausente é como se deixasse de existir), além da gestão emocional e regulação tão necessárias.
Por: Lúcia Menezes
Neuropsicóloga e Psicóloga Clínica dedicada a demências, com conhecimentos em luto, trauma e ansiedade.

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