Desde logo, a sensação de vazio é desconfortável, pois, somos ensinados, ao nos apercebermos de um espaço, a tentar enchê-lo o mais rapidamente possível.
O problema é que, ao contrário dos espaços como gavetas ou armários, não pode ser enchido com qualquer coisa daquele tamanho. O vazio dentro de nós pode parecer um buraco negro, sem termos noção do tamanho, a não ser que nos consome.
Dizem-me vocês: o tempo cura tudo, pode ser que também cure o buraco e o faça desaparecer…
Qual o risco de o ignorar? Que leve com ele as partes de nós que conhecemos e que queremos preservar, se o deixarmos sem mexer durante muito tempo.
Agora a questão é o que lhe fazer? Ocupa-se com qualquer coisa? Algumas vezes surge uma fome emocional, que leva a comportamentos compulsivos, para preencher, na tentativa de deixar de sentir o bloqueio na barriga, o peso nas costas…
Porém, como a necessidade de base não é de comida, o nosso corpo rapidamente é invadido por culpa, por se aperceber do impacto negativo que teve aquele consumo repentino e, ainda por cima sem resultado positivo, pois o vazio continua lá.
Há quem diga que preferia sentir-se cheio de qualquer coisa… Pelo menos, seria algo para se distrair do vazio, podendo ser atividades radicais, relações ocasionais, gastos impulsivos, condução arriscada, vícios (desde químicos a comportamentais: como jogo, investimentos).
Doseado cumpre a sua função, mas há que ficar de alerta quando se recorre para preencher um vazio, que teima em permanecer.
Quanto mais o queremos preencher, mais ele parece aumentar e levar partes de nós conhecidas e mais caímos num estado de não nos reconhecermos e perdermos identidade.
Isto por não estarmos a escutá-lo verdadeiramente, a perceber o propósito dele, o que o move. O vazio é a manifestação de quando as emoções não são escutadas e respeitadas. Leva a uma perda de identidade quando as nossas necessidades não são reguladas por outros numa fase precoce e optamos por continuar a agir como se não precisássemos de as respeitar. É como se um carro não precisasse de gasolina para “ser forte” e trabalhar…
Isto pode originar sentimento de vergonha e ausência de conforto, mesmo se estivermos no sítio mais rodeado de pessoas, pois não estamos confortáveis na nossa pele.
O processo a percorrer é o de aceitação destas versões dentro de nós, de respeito e regulação das nossas necessidades e emoções que as sinalizam, deixando de haver propósito para este vazio.
Por: Lúcia Menezes
Neuropsicóloga e Psicóloga Clínica dedicada a demências, com conhecimentos em luto, trauma e ansiedade.

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