À luz da teoria Darwiniana, existem três tipos de seleção: (1) a seleção natural, relacionada com a evolução de características que beneficiam o animal na luta com o ambiente físico (e.g., clima, temperatura, predadores, procura de alimento); (2) a competição intrassexual, relacionada com a evolução de características que beneficiam o animal na competição por parceiros (e.g., tamanho, força, agressividade); (3) a competição intersexual, relacionada com a evolução de características que tornem um animal atrativo para o sexo oposto como parceiro (e.g., cor, plumagem, físico).
Estes três tipos de seleção podem, por vezes, entrar em conflito e um exemplo ilustrativo é quando a cor da plumagem que atrai o sexo oposto pode dificultar a camuflagem para enganar o predador. Ainda assim, quanto maior a competência nestes domínios, maior o sucesso reprodutivo individual. No entanto, este não explica algumas dimensões do comportamento, nomeadamente o autossacrifício e o altruísmo. Vários estudos sobre a relação entre o altruísmo e o grau de parentesco mostraram que os indivíduos que partilharem genes semelhantes com os seus parentes terão mais vantagens genéticas. Esta vantagem dá origem a muitas estratégias comportamentais sociais, como o cuidar das crianças, ajudar os parentes, procurar obter estatuto, partilhar, cooperar (altruísmo recíproco). São estratégias que há milhões de anos eram direcionadas para o grupo, e que hoje em dia são direcionadas para a família. Mas nem sempre é pacífica a interação entre estes dois tipos de sobrevivência (genética e social), podendo em termos da sobrevivência surgir conflitos em termos de análise custo-benefício. Todos os organismos vivos desenvolvem mecanismos que lhes permitem detetar precocemente os custos e benefícios de interagir com outros elementos da mesma espécie. Todos os seres humanos possuem capacidades mentais especializadas para avaliar os custos e benefícios das relações sociais e elaborar respostas com base nessa avaliação. De facto, muitas perturbações emocionais podem até ser bastantes racionais quando analisadas em termos de custo versus benefício. Assim, o comportamento social humano é explicado em parte por um conjunto de estratégias de sobrevivência genética, que funcionam com a regra de análise custo-benefício como método para avaliar a adequação de respostas comportamentais e afetivas. Além disto, podem ainda existir conflitos na perseguição de diferentes objetivos biossociais, e entre as estratégias e táticas para alcançar o mesmo objetivo, sendo precisamente este processo que causa a maioria dos sintomas psicopatológicos.

De acordo com a perspetiva evolucionária, os organismos estão preparados com mecanismos que asseguram determinadas motivações básicas: alimentação, reprodução sexual, deteção de ameaças e perigos, estabelecimento de alianças e parcerias. Por muito que isto seja difícil de engolir, as motivações, disposições e estratégias evolutivas humanas emergiram unicamente para cumprir os objetivos de sobrevivência, mas não necessariamente para promover a felicidade ou o que poderíamos considerar de saúde mental. Pois é, todos nós compartilhamos genes muito semelhantes, mas também de um cérebro muito complicado que é comum a todos nós. Uns lidam com isso melhor que outros, mas viver implica sempre algum grau de sofrimento associado. Toda a gente possui um cérebro com emoções, motivações e modos de pensar comuns. Algumas dessas experiências mentais podem ser muito úteis, como a resolução de problemas diante dos desafios ambientais, mas outras experiências mentais podem ser bastante dolorosas, como, por exemplo, preocuparmo-nos com eventos distantes no futuro ou do passado sobre os quais não temos nenhum controlo, como acontece com as perturbações de ansiedade ou depressivas. Isto torna a nossa mente num fenómeno agridoce. Por um lado, possui qualidades adaptativas fenomenais que nos ajudam; por outro, em determinados contextos e situações, essas qualidades podem tornar-se desadaptativas, patológicas e gerar sofrimento.
Isso significa que os mecanismos a partir dos quais emergem perturbações psicopatológicas tais como a ansiedade, depressão e paranoia podem ser vistos como adaptações evolutivas. Apesar de serem adaptativos, em determinados contextos e situações tornam-se desadaptativos e patológicos. Por exemplo, a ansiedade está relacionada com diferentes formas de defesa face à ameaça; a depressão, com a diminuição no afeto positivo e a reduzida exploração, útil para lidar com contextos de perda e de derrota; já a paranoia está muitas vezes associada às ameaças de outros do mesmo grupo ou espécie com efeitos de proteção. Sem estes processos mentais, estaríamos em séria desvantagem, uma vez que teríamos perdido a nossa capacidade de avaliar e regular o comportamento de acordo com o contexto. Sem a ansiedade, não estaríamos preparados para fugir das ameaças, sem a tristeza, não estaríamos preparados para desistir perante a derrota e sem a desconfiança não nos conseguiríamos proteger de elementos da nossa espécie potencialmente perigosos. Então, isto significa que esses mecanismos de controlo do afeto e do humor trabalham sincronicamente e de forma adaptada em todos os contextos, contudo, podem tornar-se desadaptativos se não conseguirmos sair desse modo de funcionamento. Quando não conseguimos apaziguar a ansiedade, a tristeza ou a desconfiança, por exemplo, elas instalam-se, enraízam-se e tornam-se patológicas.

Infelizmente, a evolução não está feita para que todos tenhamos um «final feliz», mas sim que consigamos mais ou menos sobreviver às várias condicionantes e constrangimentos que existem no meio. Assim, uma vez executado o projeto biológico que é sobreviver, podem ocorrer «falhas» (constrangimentos) consideráveis nesse mesmo projeto que, por vezes, não são resolvidas pela seleção natural. Um exemplo disto é o tamanho do cérebro dos recém-nascidos que gera dificuldades no nascimento pela dimensão do canal de nascimento, tendo provocado a morte de muitas mulheres durante o parto. Outro exemplo é a seleção para preferência pelo sabor doce, que pode ter sido adaptativa ao fornecer uma pista de que o alimento contém glicose e energia. Mas no ambiente moderno, com a abundância de açúcares ao nosso dispor, a preferência pelo sabor doce pode contribuir para o aumento de comorbidades como diabetes, obesidade e outras doenças crónicas, que geram sérios prejuízos sociais e elevados gastos em saúde pública. Em termos evolutivos, cada «avanço» representa não o desenvolvimento de novas estruturas fisiológicas capazes de lhe responder, mas reestruturações das estruturas pré-existentes, o que faz com que o cérebro humano seja um «órgão remendado» com múltiplos sistemas de equilíbrio e de inibição, que procuram controlar as componentes funcionais desenvolvidas anteriormente. Por isso gosto de comparar a nossa mente a um site em atualização, que está inacabado. Ele funciona, mas basta sobrecarregar que começa a bloquear e a congelar.
Assim, a psicopatologia apresenta-se como uma consequência dos vários «remendos» dos diferentes mecanismos mentais adaptativos que foram ficando pela seleção natural e pela pressão seletiva, com o intuito de sobrevivência e não de felicidade.
Por: Sophie Seromenho
Psicóloga Clínica, Professora e Autora dos livros “Basta de Autocrítica“, “Não é Loucura, é Ansiedade” e vários ebooks.

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