Com a evolução digital tem-se vivido bastantes alterações na vida humana, nomeadamente a nível de relações sociais. Se por um lado existem vantagens com a globalização, visto que temos acesso a mais informação, de mais rápido acesso e com uma multiplicidade de contactos; por outro, perde-se, muitas vezes, profundidade, continuidade e verdadeira presença nas ligações humanas.
As novas tecnologias, as redes sociais e a crescente aceleração da vida quotidiana têm vindo a alterar, de forma estrutural, o modo como as pessoas se ligam umas às outras, e, mais preocupante ainda, como se sentem ligados.
Com a pandemia, a intensificação das redes sociais fez com que, mesmo todos em casa, estivéssemos ligados uns aos outros. Houve a necessidade de redirecionar os afetos para a partilha online e a utilização de ecrãs. Desde lives que juntavam milhões de pessoas a grupos de partilhas de experiências. Assim, foi-se criando um sentimento de ligação e pertença às pessoas que proporcionaram estes momentos, mesmo sem as conhecerem.
Assim, o digital tem-se tornado uma presença constante e, por algumas vezes, um substituto ao que são as relações sociais. Parece existir uma maior facilidade em fazer parte da vida das pessoas, mas mais longe do que realmente se perceciona estar. Basta pensar na curiosidade evidente de se estar a acompanhar a vida de pessoas com quem nunca falamos, da informação obtida acerca de desconhecidos que se evidenciam nas redes sociais e da busca pela novidade de pessoas fora dos núcleos de amizades. Esta facilidade que se observa com as redes sociais, pode até fazer com que as pessoas sintam as partilhas que recebem com a mesma intensidade que aconteceria com alguém amigo.
Desta forma, desenvolveu-se um novo conceito de relações sociais, que antes eram valorizadas pela presença física, agora tornaram-se, em grande parte, mediadas pela tecnologia. Esta nova era das relações sociais é marcada simultaneamente por uma maior conectividade e por uma crescente sensação de isolamento. A sensação que se conhece as pessoas, porque se acompanha o que é postado, como se fosse construída uma relação de amizade, mas de forma unilateral.
Atualmente vive-se numa sociedade onde estar “online” é quase obrigatório, o número de pessoas que vive em busca de validação digital é preocupante. Há uma necessidade de se partilhar com quem está no digital os momentos vividos no mundo físico, uma maior procura de acompanhar a vida de quem “seguimos” e, consequentemente, mais tempo debruçado sobre um ecrã, mesmo em convívios presenciais. Logo, vive-se numa geração em que se tem “amigos” a mais, mas afeto a menos.
Contudo, há estudos científicos a comprovar que apesar da geração atual ser a mais conectada, é também uma das que apresenta maiores níveis de solidão. Em Portugal, uma investigação conduzida pelo ISPA (2023) demonstrou que o uso intensivo e desregulado das redes sociais está associado a uma maior solidão e ansiedade, como um afastamento não intencional dos vínculos afetivos. Este aumento da presença online, diminui a presença offline, p.e, grupos de amigos estarem juntos presencialmente, mas estarem constantemente nas redes sociais, ou seja, estão presentes fisicamente, mas realisticamente não estão. Deparando-se com a substituição da presença emocional pela disponibilidade e conectividade constante no digital.
Do ponto de vista psicológico, é preciso reforçar a importância de competências relacionais como a escuta ativa, a empatia, e o respeito pelos tempos do outro. Competências estas que podem estar comprometidas nas relações baseadas ao nível tecnológico. Assim, é urgente repensar no conceito de relações sociais, com foco numa conexão autêntica e presente.
Em suma, a nova era das relações sociais é, simultaneamente, uma oportunidade e um risco. Pode usar-se para reforçar laços, ampliar redes de apoio e aproximar distâncias. Mas, se não houver limites e prioridades bem estabelecidos, existe o risco da sociedade se tornar paradoxal: permanentemente ligada, mas cada vez mais só.
Por: Filipa de Freitas
Psicóloga Clínica com interesse nas áreas de ansiedade, luto, perturbações de humor, igualdade de género, violência domestica e de género.

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