Em tempos de ligações frágeis, hiperconexão e procura constante pela validação dos outros, o livro “Let Them” (Deixa Ir, em tradução livre, de Mel Robbins) surge como um lembrete precioso de saúde emocional: deixa que as pessoas façam o que quiserem fazer (deixa estar) e permite-te controlar aquilo que realmente depende de ti: a forma como reages (deixa-me).
A proposta central deste livro é simples, mas profundamente transformadora e atual: se alguém quiser ir, deixa ir; se não quiser incluir, deixa que não inclua; se não quiser compreender, deixa que não compreenda. A mensagem não é sobre frieza, indiferença ou superioridade, mas sim sobre auto-respeito e aceitação dos limites do outro, princípios essenciais em qualquer relação saudável.
No dia-a-dia, e sobretudo em terapia, é comum vermos pessoas a sofrer por tentarem controlar o incontrolável: a opinião dos outros, o comportamento de quem amam, o reconhecimento no trabalho, a resposta que não chega. Este livro convida-nos a mudar o foco: sair da tentativa de agradar tudo e todos e regressar ao centro daquilo que realmente está ao nosso alcance, as nossas próprias escolhas e atitudes. “O que importa não é que acontece, mas a forma como reagimos ao que acontece”, quer isto dizer que o nosso poder está na forma como reagimos e não em tentar controlar o que acontece, isto levar-nos-á a uma espiral negativa e cansativa.
“Deixa Ir e Deixa-me” cruza-se com ideias centrais da psicologia humanista e do estabelecimento de limites emocionais saudáveis: permitir que o outro seja quem é, sem nos anularmos para caber em espaços onde não somos respeitados. A proposta é simples, mas libertadora: em vez de reagirmos com ressentimento, culpa ou necessidade de aprovação, escolhemos a liberdade interior e o bem-estar emocional.
Porque é que esta mensagem é tão importante nos dias de hoje? Vivemos numa sociedade que valoriza a permanência, a imagem e o desempenho, onde a ansiedade, o stress e outros problemas emocionais fazem parte do quotidiano de grande parte das pessoas. Existe uma pressão constante para manter relações, para corresponder a expectativas e para estar sempre “à altura”, seja no trabalho, nas redes sociais ou na vida pessoal. Neste cenário, aprender a “Deixar ir” e aceitar que nem tudo depende de nós torna-se um não só um ato de coragem, mas também um ato de saúde mental. Libertar-mo-nos da necessidade de agradar tudo e todos, de reter o que já não faz sentido e de insistir
em lugares onde não somos valorizados é um passo essencial para reduzir o desgaste emocional e viver com mais autenticidade, tranquilidade e paz. Porém, amadurecer emocionalmente implica também, saber sair de cena, respeitar a escolha do outro e compreender que nem todas as ausências precisam de ser preenchidas. Este livro recorda-nos que aceitar o que não podemos mudar é, muitas vezes, o maior gesto de autocuidado que podemos oferecer a nós mesmos. Seja na vida pessoal, no trabalho e até na terapia (muitas destas questões são amplamente trabalhadas em terapia), este livro é um excelente ponto de partida para refletir sobre limites, identidade e liberdade emocional. Todas estas competências, podem ser trabalhadas e aprimoradas e são fundamentais, quer para conseguirmos manter relações saudáveis com os outros, mas sobretudo para conseguirmos ter uma relação saudável connosco próprios.
Por: Mafalda Hormigo
Psicóloga Clínica com maior foco em crianças, adolescentes e jovens adultos e autora deste ebook.

Deixe um comentário