Num mundo onde as exigências da vida moderna assentam em ritmos acelerados, um foco exacerbado no futuro, distrações digitais constantes ou pressões por produtividade cada vez maiores, a capacidade de estar e viver o momento presente torna-se cada vez mais desafiante. Podemos estar deitados ao sol num belo dia de praia de céu azul com o mar como fundo aos nossos pés, mas a maioria de nós não se conecta verdadeiramente ao momento, mas sim a algo relacionado com o trabalho, com a família, com uma discussão com alguém de há 5 anos, com os nossos medos antecipatórios e planos para o futuro… Estamos muitas vezes a “reviver” cenas do passado e a antecipar o que ainda aí vem, ansiosos com os nossos próprios pensamentos e sensações, outras vezes a tentar entender o que deu errado e a perguntarmo-nos “e se tivesse feito a ou b?”. O que torna o presente, especialmente os melhores momentos dele, tão difícil de vivenciar e sentir?
Viver e sentir o momento presente significa estarmos conscientes e atentos às experiências do momento, conseguindo estar conectados com o que está a acontecer, com pensamentos, emoções e sensações físicas. Contudo, isto pode ser difícil para muitas pessoas, o que tem como consequência uma sensação persistente de insatisfação com a vida. Desenvolver esta capacidade de experienciar o momento presente pode parecer complicado devido ao nosso “vício” em estarmos sempre ocupados, quer a nível de ações práticas, quer a nível mental. Passamos a maior parte do tempo envolvidos com as nossas atividades e deveres e, quando paramos, arranjamos logo algo para nos distrair, seja pegar no telemóvel, seja arranjar outra forma de fugirmos do aborrecimento de estar ali só a existir. Ficamos tão habituados a estarmos ocupados que para muitos de nós é difícil imaginarmo-nos a não fazer nada. No plano dos pensamentos, ocorre a mesma coisa. Estamos sempre ocupados a pensar em algo. E, atrevo-me a dizer que, muitas vezes, o que estamos a pensar nem coincide com o que estamos a fazer naquele momento. Isto acontece porque já nos movemos na vida com uma certa compreensão do mundo e de nós mesmos, uma certa familiaridade que nos permite realizar as nossas tarefas sem que estejamos necessariamente a pensar sobre o que estamos a fazer. Sem estarmos inteiros na ação. Funcionamos em piloto automático.
Assim sendo, podemos perceber que a cultura contemporânea, marcada pela hiperestimulação, pela hiperconectividade e pela pressão ligada à produtividade constante, é um dos maiores obstáculos a conseguirmos estar verdadeiramente no agora porque os dispositivos digitais, as redes sociais, o scroll infinito e as exigências constantes criam uma sobrecarga no nosso corpo, dificultando o foco. Adicionalmente, tendemos a querer fugir de emoções desagradáveis ou de sensações físicas dolorosas e procuramos alívio nas distrações, que perpetuam muitas vezes a desconexão com o momento presente e podem levar a padrões disfuncionais a longo prazo.
Além disso, uma das causas mais profundas da dificuldade em viver o presente está relacionada com experiências traumáticas. O trauma, seja ele resultado de eventos isolados ou prolongados, altera significativamente a maneira como o cérebro processa e responde ao presente. Há uma hiperativação no cérebro e esta hiperativação pode criar um estado constante de alerta, onde a mente está sempre à procura de ameaças, mesmo em situações seguras. Determinadas sensações corporais ou gatilhos podem evocar sensações inconscientes, fazendo com que a pessoa reviva o passado em vez de experienciar o momento presente. Isto torna a conexão com o “aqui e agora” não apenas difícil, mas potencialmente dolorosa.
Embora seja desafiante, é possível treinar a mente e o corpo para se reconectarem ao presente, mesmo quando o trauma está envolvido e a ciência oferece diversas abordagens baseadas em evidências. Terapias baseadas em mindfulness, como a Redução de Stress Baseada em Mindfulness (MBSR), têm demonstrado resultados promissores na redução de sintomas de trauma e na promoção da atenção plena. Práticas como a respiração consciente, caminhadas e “scans” corporais ajudam a cultivar a vivência do presente, mesmo perante o desconforto. O apoio terapêutico também desempenha um papel muito importante, pois oferece ferramentas para a exploração de memórias traumáticas e constrói uma sensação de segurança no presente. Além disso, técnicas de grounding são estratégias simples e eficazes para redirecionarem a atenção para o momento presente. Reconectarmo-nos com o nosso corpo através de atividades físicas e movimento é uma ferramenta também muito poderosa para promover esta conexão holística, com sentido de integridade das várias partes que nos constituem e que permite ancorar no presente. Neste processo, a autocompaixão desempenha igualmente um papel essencial, pois não só reduz a reatividade emocional, como também promove a cura.
Estar, sentir e conseguir desfrutar do momento presente, especialmente após alguma experiência traumática, é um caminho gradual e desafiante. Reconectarmo-nos ao momento presente não é apenas uma questão de bem-estar, é também um ato de cura, onde podemos encontrar paz, significado e resiliência.
— Por Daniela Lopes | Marcar Consulta —

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