Critico-me por não ser positivo… Será que tenho culpa? Aliás, até tenho vergonha de admitir…
Numa altura em que, mais do que nunca, se fala de ser positivo, de ter de enfrentar tudo com um sorriso, quando a tristeza toma conta, parece que nos envergonhamos por defeito…
Estamos a ficar aquém, não acompanhamos o ritmo do positivismo (sejamos sinceros, enervante e desproporcional) que é passado nas redes sociais ou até em conversas com pessoas próximas.
Este sentimento de não ser suficiente roça a injustiça, certo? Porque tenho eu de sofrer por não ser positivo quando os outros parecem ter melhores condições e ficar limitado por não atingir os meus objetivos?
Não parece justo comparar condições, então porque comparamos resultados?

Podemos pensar numa metáfora: construo um barco mais rápido se tiver logo acesso fácil a madeira mas, se me desgastar a comprar a madeira, tenho direito a sentir tristeza, cansaço e injustiça até o acabar de construir?
Aqui pode acompanhar a culpa, sentimento muito marcado por não atingirmos objetivos, por termos obstáculos, por injustiças, por não termos acesso a algo que sentimos que outros tem.
Viver com culpa é limitante, especialmente se for prolongado ao longo do tempo. Esta culpa começa a corroer o sentido de valor próprio e transforma-se em algo que distorce o nosso valor. Enquanto a culpa é de dentro para fora, a vergonha torna-se de dentro para dentro, como uma panela que está corroída por dentro por ter ficado muito tempo ao lume.
O que as une são as condições de base, de olharmos para nós próprios a procura de onde está mal, em vez de pesar na balança o que está mal e as ferramentas que temos para compensar lidar com isso.
Ou seja, substituir o olhar crítico (que já é muito incentivado pelas redes sociais por um, de aceitação e compaixão). Sem cair no outro extremo, de só querer olhar para as partes positivas e viver numa negação utópica de que o mal nunca nos irá acontecer. Sabendo que quando chegar, temos confiança em saber lidar com ele.
Assim, não nos rendemos a um positivismo tóxico nem a uma crítica corrosiva constante. Conta comigo neste processo de equilíbrio.
Por: Lúcia Menezes
Neuropsicóloga e Psicóloga Clínica dedicada a demências, com conhecimentos em luto, trauma e ansiedade.

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