Em primeiro lugar, parece-me importante refletir sobre o que é isto de personalidade. De uma forma muito sucinta, a personalidade é aquilo que torna cada pessoa num ser individual, com características que a tornam diferente de todas as outras.

A forma como a personalidade se estabelece depende de muitos fatores, mas que interferem na forma como pensamos e sentimos as situações e, consequentemente, a maneira como agimos.  Depende também de fatores do desenvolvimento da pessoa na infância e adolescência, fatores esses que ajudam a formar uma certa visão do mundo e das pessoas que a rodeiam e que vão influenciar a forma como olha para o que lhe acontece ao longo da vida. O ambiente em que a pessoa vive (social, económico, cultural) também contribui de forma decisiva para a formação da personalidade e como cada ser humano se relaciona entre si.

Assim, é a forma como se interligam estes fatores que vão determinar os comportamentos que a pessoa tem, os seus pensamentos e a forma como interpreta as situações e os sentimentos que tem pelas pessoas, situações ou memórias.

O diagnóstico de uma perturbação da personalidade pode estabelecer-se quando uma pessoa, ao longo da sua vida, mantém um comportamento pouco flexível perante as diferentes situações da vida, o que faz com que tenha dificuldade em adaptar-se, causando sofrimento a si própria e àqueles com quem convive. Estes padrões de comportamentos, quando comparados com o que é habitual nas pessoas do mesmo meio social e cultural, são desvios extremos e importantes da forma como a pessoa perceciona, pensa e sente as situações e se relaciona com os outros. É isto que lhe traz dificuldades ao longo da vida, pela incapacidade em se adaptar às pessoas e situações, o que causa sofrimento.

Ilustração que demonstra a linha que existe entre o amor, carinho e dependência

Na perturbação de personalidade dependente, o que acontece é que há uma necessidade global e excessiva de ser cuidado, submisso e com muito medo da solidão. Existe assim uma excessiva dependência dos outros para tomar decisões quotidianas e há uma inaptidão significativa ao nível da autonomia que se reflete numa constante necessidade de apoio, cuidado, segurança e proteção. Permitem que os outros assumam a responsabilidade pelas áreas mais importantes da sua vida, colocando as necessidades deles acima das suas, evitando discordar por medo de ser deixado entregue a si mesmo e perder a aprovação. Pessoas com esta perturbação são tradicionalmente descritas como “carentes” pelos outros. Sentem-se incapazes de sobreviver sozinhas, de vivenciar momentos de solidão, de cuidar de si de forma autónoma, sem o apoio de outro. Quando sozinhas sentem-se frágeis, vulneráveis, angustiadas, com uma perceção de desorganização emocional e caos interior, como se as coisas não fizessem muito sentido.

Nas relações amorosas, as pessoas com perturbação de personalidade dependente confundem o sentimento de amor pelo outro com uma necessidade excessiva do outro – dependência amorosa patológica – ignorando que o amor nada tem a ver com dependência. Esta forma de vivenciar as relações pode levar à perpetuação de relacionamentos afetivos não muito saudáveis, no sentido em que a outra pessoa se torna o centro do mundo da pessoa dependente, negligenciando o seu próprio bem-estar, as suas vontades e opiniões.

A Psicoterapia é uma estratégia eficaz para lidar com esta problemática, orientada para a compreensão dos padrões e crenças desadaptativas, a regulação emocional, assertividade, equilíbrio entre dependência e independência nos relacionamentos interpessoais, desenvolvimento da autoestima e da autonomia.