Calma, foi só clickbait. Mais ou menos. Não acredito que o “wokismo” seja uma força nefasta; antes pelo contrário, o seu despertar ecoa além. Para quem não está a par, o termo “wokismo” traduz uma visão que clama por justiça, equidade e sensibilidade perante as mazelas sociais, em especial as que tocam raça, género e orientação sexual.

Embora muitas virtudes tenham florescido daqui, como o empoderamento feminino, o empoderamento das pessoas racializadas e os direitos LGBT, sinto que, no fervor pela consciência coletiva, estamo-nos a perder e a desviar do real foco. Ansiamos por inclusão, mas inadvertidamente excluímos os que divergem, os que não ecoam em uníssono.

O vosso anseio fanático e quase religioso por progresso, está a limitar o horizonte da diversidade de pensamento. No meu modesto sentir, o movimento “woke” ressoa de forma ditatorial, urdindo uma guerra cultural que fragmenta, polariza e estreita as margens do debate, num ciclo de intolerância crescente. Humanidade perdida em sombras.

Pessoas que levantam os seus cravos de Abril com a premissa de “viva a liberdade!” estão a retirar a liberdade a todos os que pensam diferente e discordam com este fanatismo pela inclusão social e justiça social (aliás, conto já com comentários de ódio e unfollows por estar a expressar a minha opinião e a refletir sobre este movimento. É o que é).

Pintura que representa liberdade, tendo sido feita para celebrar o 25 de abril
Liberdade para Florescer, Karla Ruas (@ruaskarla)

Se há coisa que a psicologia me deu de bom, foi a compreensão da mente humana, do funcionamento humano em sociedade e em grupo, o que me distancia de cair em visões extremadas e altamente blindadas por ideologias políticas. Deu-me a compreensão do que é um estereótipo, do preconceito, de como se formam e do porquê de se formarem. Também, do comportamento humano dentro de grupos e fora de grupos e de como o Sapiens funciona perante outros da mesma espécie que não fazem parte do endogrupo. É muito mais fácil para mim compreender porque existem opiniões divergentes, como se formam alianças através da partilha de valores, mas também como as pessoas podem ser tão destrutivas umas para as outras quando discordam.

Tenho observado com olhos de ver este fenómeno não só na minha jornada pessoal, mas também nas minhas consultas com os meus clientes. A rapidez com que se bane almas, cortando laços com amigos de longa data ou purgando os círculos das redes sociais por desavenças mínimas, é uma chama que arde intensamente, despertando temor e desespero.

A “cultura do cancelamento” entrelaçada com a essência demasiado “desperta” e “iluminada” parece-me um feitiço de perigo iminente. Aqueles que se cobrem sob o manto da aceitação e da união, semeiam intolerância e ódio contra pensamentos divergentes – não necessariamente opostos, mas apenas ligeiramente distintos – e revelam uma face que destoa da democracia e da inclusão. Quando desafiados, os “woke” mostram resistência ao livre fluir das ideias. Em verdade, perante a discussão, lançam maldições em forma de palavras, encerrando o debate e chacinando as pessoas. O uso de termos como “fóbico”, “intolerante”, “racista”, “xenófobo” muitas vezes encerra a conversa, impondo o rótulo de vilão e fascista. Desfazer laços de amizade por escutar músicas de artistas associados à misoginia, por jogar jogos com inteligência artificial sem honrar os criadores originais, por adquirir roupa de lugares como a Shein e Temu, é, aos meus olhos, um desvario nascido do fervor pelo despertar.

Imagem de três pessoas a terem uma conversa, um mundo aposto ao do extremado wokismo
Imagem Pexels

E, ainda por cima, com as eleições esta nuvem adensou-se, tornando o ar, a meu ver, irrespirável. Pelo menos, eu sinto o “ar digital’ intoxicado de egos inflamados à bulha em busca da taça da razão, da verdade e da justiça. A verdade é que na perspetiva de que estão libertos de um sistema opressivo patriarcal capitalista, a malta progressista e “woke” está a ser fantoche de outras agendas políticas na mesma e que não necessariamente melhores ou mais iluminadas e justas.

Lamento mas isto não é democracia, nem liberdade. E nem é verdadeiro wokismo. É emburrecimento. Os falsos progressistas não percebem a sua própria perversidade e continuam na mesma linguagem, numa perspetiva de “eu-eles” e de “eu” enquanto ser empoderado, virtuoso, iluminado e super acordado, com um discurso condescendente e arrogante, ditatorial (friso, novamente), com muita, muita ignorância e argumentos demagógicos. Quase tão demagógicos como os da outra extrema conservadora que tanto criticam. É a decadência do ocidente, empurrada pelos ativistas mais alienados que a sociedade já viu, graças às redes sociais.

Democracia não é empoderar a liberdade de expressão de alguns em prol de cancelar os outros. Democracia é dar voz a todas as vozes e respeitar a diferença.

Democracia não é cultura de cancelamento. Democracia é cultura da liberdade de expressão – de todos.

Democracia não é esta catalogação das pessoas em caixinhas como “facho”, “xenófobo”, racista”, “queerfobico e Igbtfóbico”. Democracia é lutar, sim, mas na base da compreensão e da educação.

Imagem que representa o elemento da Democracia com os cravos do 25 de abril
Imagem Cravos da Festa de Abril

O que quero apelar não é que sejamos permissivos e amigos de toda a gente e paremos de lutar pela igualdade e justiça social e por um mundo melhor. Friso: Eu considero a luta feminista e o movimento woke positivo – até certo ponto. No momento em que cancelam e retiram a liberdade dos outros porque se sentem atacados estão a fazer exatamente o mesmo que criticam que vos fazem. Estão a ser censuradores e ditatoriais.

Wokismo é para acordar as pessoas e despertá-las para certos assuntos importantes, através da educação e informação. Mas o que se está a tornar é num movimento ditatorial e elitista, que só alguns membros podem fazer parte, sendo que todos os que pensam diferente são chacinados, cancelados, odiados, provocando o efeito exatamente oposto: por se sentirem canceladas e incompreendidas voltam-se para o conservadorismo e para a revolta contra quem é “woke”.

Por isso, o que eu tenciono fazer aqui é refletir sobre o extremismo ideológico que estamos a viver. Até que ponto é que isto chegará?

Será que começaremos a viver numa bolha onde só certos grupos se dão, odiando e rejeitando com nojo os outros grupos?

A ideologia e o wokismo está a retirar-nos humanidade? Seremos tão iluminados que acabaremos sozinhos por não nos conseguirmos socializar com mais ninguém sem ser com pessoas exatamente iguais a nós? Isto é a democracia moderna?

Estaremo-nos a tornar demasiado egoístas e egocentrados?

É importante promover a justiça social e a igualdade de oportunidades, mas com cuidado com a intolerância e extremismo. Mais que nunca é essencial garantir que esta luta seja feita de uma maneira inclusiva e respeitosa, sem sufocar a liberdade de expressão e o diálogo aberto. É urgente encontrarmos um equilíbrio entre a defesa dos direitos de todas as minorias e a preservação da liberdade individual para que vivamos todos numa sociedade democrática e pluralista. Caso contrário não vão acordar nem despertar ninguém.

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