O comportamento de autossabotagem refere-se a ações (ou à falta delas) conscientes ou inconscientes que prejudicam o progresso das pessoas e as impedem de alcançar os seus objetivos. No fundo, e passo a redundância, a autossabotagem ocorre quando as pessoas sabotam o próprio sucesso. Um grande exemplo de autossabotagem é a procrastinação ou a autocrítica excessiva, mas neste artigo em específico gostava de abordar a autossabotagem nos relacionamentos amorosos.

As raízes da autossabotagem são diversas, podem estar ligadas a experiências de trauma passadas, a crenças limitantes desenvolvidas na infância, a estilos de vinculação inseguros, entre muitas outras.  As causas exatas destes comportamentos podem variar de pessoa para pessoa e de relação para relação. O teu passado pode influenciar o modo como ages num relacionamento. Com base no trabalho com os meus clientes, percebi que a causa mais comum da autossabotagem nos relacionamentos está relacionada com a forma como olhamos e sentimos a intimidade com os outros.

Todos desejamos intimidade e conexão, mas, dependendo das nossas experiências passadas, a intimidade pode ser muito assustadora ou muito desejada. Geralmente, traumas na infância e relações parentais complexas levam a um certo medo/desejo de intimidade com outras pessoas, quer seja ela física, sexual ou emocional. Algumas dúvidas podem começar a surgir como “Será que me vão tratar mal como aconteceu antes?”; “Nunca vou encontrar o amor”; “Mesmo que me amem, tenho a certeza de que em breve irão magoar-me.”. Adultos que não tinham controlo na infância podem, agora, compensar em excesso nas relações. Por norma, as pessoas que temem a intimidade acreditam que aqueles que amam irão sempre magoá-las, porque os laços de confiança formados na infância com pais ou outros cuidadores foram destruídos. Na infância, não podiam escapar destas relações, mas como adultos, têm agora o poder de o fazer, mesmo que essas relações não sejam prejudiciais. Pelo contrário, pessoas que desejam muito a intimidade, procuram a proximidade e a validação de forma muito intensa, o que pode levar a comportamentos de dependência emocional e necessidade de aprovação contínua do parceiro. Este desejo de intimidade extrema é muitas vezes acompanhado de insegurança e ansiedade, criando um ciclo em que o medo de perder o outro leva a comportamentos que acabam por sufocar a relação. Estas pessoas, devido às suas experiências na infância, podem ter desenvolvido uma visão de si mesmas como indignas de amor e uma visão dos outros como imprevisíveis ou pouco confiáveis. Assim, o desejo de conexão torna-se muitas vezes um esforço desesperado para preencher lacunas emocionais deixadas por vínculos instáveis ou inconsistentes no passado.

Posto isto, é claro que a autossabotagem nas relações amorosas é um fenómeno muito comum falado nas consultas de Psicologia e alguns exemplos prendem-se com as críticas frequentes ao parceiro, ciúmes contínuos assim como a dificuldade em confiar na outra pessoa e os comportamentos que isso acarreta, comportamentos autodestrutivos, traições, desrespeito pelos limites do outro, afastamento emocional, falta de comunicação, reagir na defensiva, tendência para evitar conversas importantes, entre outros… Para além disso, muitas vezes em consulta também, encontramos os mesmos padrões destrutivos nas transições de uma relação para outra. Se as mesmas dificuldades surgem em diferentes relações, pode ser um sinal de que os problemas não estão apenas nas circunstâncias ou no parceiro, mas também em comportamentos autodestrutivos próprios. Contudo, também se compreende que estes comportamentos nem sempre são claramente expressos e para muitos, o seu ataque ou afastamento é apenas uma forma de defesa. Independentemente de quais comportamentos de autossabotagem sejam observados nas relações românticas, podem ser entendidos como manifestações das diferentes formas como as pessoas se tentam proteger. É fundamental prestares atenção às emoções que surgem em momentos de proximidade ou de vulnerabilidade. Sentires desconforto, ansiedade ou a necessidade de te afastares ou procurares incessantemente o outro quando a relação se torna complicada, pode ser um sinal de medo de te magoares ou de seres rejeitado/a.

A resposta está mesmo na necessidade de autoproteção. O medo de sermos vulneráveis perante os outros, de nos magoarmos, de sermos rejeitados ou de enfrentarmos o abandono, leva-nos a criar barreiras emocionais para nos protegermos de um possível fracasso. A ironia é que, ao tentarmos evitar a dor, acabamos por perpetuar os padrões destrutivos que tornam quase inevitável o desfecho de que tanto medo temos.

Acho muito interessante a perspetiva de que a autossabotagem pode ser lida como esta forma de nos protegermos emocionalmente, criando uma espécie de “cenário seguro” em que qualquer resultado parece justificável. Ou seja, se a relação resistir e prosperar, é uma prova de força e resiliência, como uma espécie de vitória pessoal apesar dos obstáculos que fomos colocando. Por outro lado, se a relação terminar, o fracasso confirma as nossas crenças mais inseguras sobre nós próprios e sobre os relacionamentos no geral, permitindo-nos atribuir a culpa a fatores externos ou inevitáveis, em vez de reconhecermos o impacto dos nossos próprios comportamentos e ganharmos responsabilidade sobre estes.

Quebrar este padrão é possível, mas requer um esforço consciente. Reconheceres os comportamentos de autossabotagem é o primeiro passo. Desenvolveres competências relacionais como a comunicação aberta e efetiva, assim como compreenderes e aceitares os teus medos e vulnerabilidades são fatores cruciais para o sucesso das relações. Com esforço e autoconhecimento, é possível transformares padrões destrutivos e criares conexões que realmente valem a pena.

— Por Daniela Lopes | Marcar Consulta —

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