A China realmente está a conseguir, através dos planos quinquenais, utilizar os produtos do capitalismo como lubrificante para alcançar os seus objetivos de desenvolvimento económico e, teoricamente, o tão proclamado comunismo. Mas a que custo? Será que esta jornada está a desumanizar as pessoas, desgastando-as a um ponto de rutura e sacrificando liberdades e dignidade em nome de um progresso que parece nunca chegar ao povo?
O modelo chinês, embora impressionante na superfície, carrega o peso de milhões de vidas submetidas a condições extremas. Estudos publicados por organizações como a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional documentam as duras condições de trabalho enfrentadas pelos trabalhadores chineses, especialmente no setor tecnológico e industrial. A prática do “996” — das 9h às 21h, 6 dias por semana — como tem acontecido na Vila Shein, tem sido associada a exaustão laboral severa, como descrito por Zheng et al. (2021), num estudo sobre burnout na China, que aponta que 68% dos trabalhadores em setores urbanos relatam sintomas de burnout.
Para os mais jovens, o desgaste psicológico é visível no movimento “Tang Ping” (deitar-se). Pesquisas conduzidas por sociólogos chineses, como a Dra. Zhang Chenchen da Peking University, mostram que o movimento reflete uma resistência coletiva ao ritmo desumanizante do progresso económico. Jovens adultos expressam frustração com a ausência de perspetivas a longo prazo, citando altos custos de vida e baixas recompensas emocionais.
A repressão a minorias também é um custo pesado deste modelo. A situação dos uigures em Xinjiang é amplamente documentada, com relatórios da United Nations Human Rights Office descrevendo violações de direitos humanos, incluindo trabalhos forçados e repressão cultural. Paralelamente, o sistema de crédito social, conforme analisado por Creemers (2018) na Chinese Journal of Political Science, é criticado como uma ferramenta que promove a conformidade forçada e limita liberdades individuais.
O impacto ambiental é outro capítulo desta história. Estudos da World Bank indicam que a industrialização chinesa contribuiu significativamente para os níveis globais de poluição, especialmente na década de 1990. Embora a China seja agora líder em energias renováveis, o relatório de 2021 da International Energy Agency (IEA) destaca que os efeitos das décadas anteriores de poluição industrial continuam a afetar milhões de pessoas, com problemas de saúde pública e degradação ambiental.

Agora, vejamos a Islândia, que oferece um contraste gritante a este modelo. Este pequeno país nórdico, consistentemente classificado entre os mais felizes do mundo pelo World Happiness Report, prioriza o bem-estar humano como pilar do seu desenvolvimento. A Islândia investe cerca de 9,5% do seu PIB em saúde, de acordo com dados da OECD, garantindo acesso universal e gratuito a cuidados médicos e de saúde mental.
Em termos de saúde mental, o país destaca-se por iniciativas comunitárias e acesso facilitado a psicólogos e psiquiatras. Um estudo publicado por Gudmundsdottir et al. (2019) na revista Nordic Psychology documenta que a Islândia investe ativamente na prevenção de problemas de saúde mental, com programas educativos e serviços de suporte acessíveis, resultando numa taxa de satisfação geral com o sistema de saúde mental superior à média europeia.
Além disso, a Islândia promove condições de trabalho dignas. Jornadas flexíveis e semanas de trabalho reduzidas são a norma, como demonstrado num relatório de 2021 do Autonomy Research Institute, que analisou o impacto de projetos-piloto de semanas de trabalho de quatro dias. Os resultados mostram uma melhoria significativa na produtividade e no bem-estar dos trabalhadores, provando que a redução das horas de trabalho não compromete o crescimento económico.
A igualdade de género é outro exemplo de como a Islândia lidera no progresso social. De acordo com o Global Gender Gap Report do Fórum Económico Mundial, a Islândia ocupa consistentemente o primeiro lugar na igualdade de género, graças a políticas como licenças parentais equitativas e legislação de paridade salarial.
A comparação entre os dois modelos é inevitável. A China, com os seus avanços tecnológicos e números impressionantes, parece crescer à custa da alma dos seus cidadãos. Já a Islândia, com menos recursos naturais e uma população reduzida, constrói um modelo onde o progresso económico e social caminham lado a lado, sem sacrificar o ser humano.
A verdadeira questão não é apenas que modelo é mais eficiente, mas sim que modelo é mais humano. A Islândia prova que o progresso não precisa de ser uma corrida brutal, mas pode ser um processo inclusivo, sustentável e compassivo. A China, com todo o seu poder, parece ter esquecido que o verdadeiro progresso não é medido em fábricas ou números de PIB, mas no impacto real que tem na vida de quem o torna possível. Afinal, que futuro pode haver num sistema que deixa as pessoas para trás?
Por: Sophie Seromenho
Psicóloga Clínica, Professora e Autora dos livros “Basta de Autocrítica“, “Não é Loucura, é Ansiedade” e vários ebooks.
