Enquanto psicóloga não posso deixar de me sentir profundamente tocada pela mensagem de A Loucura da Normalidade de Arno Gruen (um livro excepcional!). O que Gruen descreve é algo que observo constantemente no meu trabalho terapêutico: o impacto destrutivo de uma desconexão interior – um afastamento das emoções que são, na verdade, o cerne da nossa humanidade.

Em terapia devemos partir do princípio de que o nosso bem-estar está enraizado na capacidade de nos conectarmos, tanto connosco mesmos como com os outros. As emoções, especialmente aquelas que tendemos a evitar – tristeza, medo, raiva – são vistas como portas de entrada para essa conexão. Não são fraquezas, como tantas vezes nos ensinaram, mas sim recursos valiosos que contêm energia, sabedoria e potencial de transformação.

Gruen coloca em evidência algo que muitas vezes encontramos na terapia: a tendência cultural para tratar a vulnerabilidade como um problema a corrigir. Quantas vezes ouço alguém dizer: “Quero parar de sentir isto, não aguento mais”? Ou familiares que procuram ajuda dizendo: “Ela é demasiado sensível, precisamos de a tornar mais forte.” Este tipo de abordagem, que tenta “silenciar” as emoções em vez de as integrar, perpetua exatamente o vazio de que Gruen fala – um vazio que não desaparece, apenas se torna mais insidioso, moldando-nos de formas inconscientes.

Em vez de fugir das emoções difíceis, temos que as convidar a emergir. Criamos um espaço seguro onde é possível sentir. Não apenas sentir o que dói, mas também descobrir a força e a resiliência que surgem quando permitimos que a tristeza, o medo ou a raiva sejam vividos plenamente. Porque, ao contrário do que a nossa cultura nos faz acreditar, as emoções não são perigosas. O que é perigoso é negá-las, é desumanizarmo-nos ao ponto de nos tornarmos insensíveis a nós mesmos e aos outros.

Gruen fala sobre a criatividade como algo que nasce da ligação ao nosso mundo interior. E isso ressoa profundamente com a minha prática clínica. Quando ajudamos alguém a enfrentar o que dói – a tristeza profunda, o medo avassalador, a raiva que parece incontrolável – algo mágico acontece. A dor transforma-se em algo mais. Surge energia, vitalidade, clareza. Surge autenticidade. É como se, ao permitir que a pessoa se reconecte com o que sente, ajudássemos a abrir uma porta para um Eu mais inteiro, mais humano, mais vibrante.

A grande tragédia da nossa sociedade, como Gruen aponta, é que criamos um modelo de “normalidade” que promove a desconexão. Ensinamos as pessoas a esconderem as suas emoções, a “endurecerem”. E o preço disso é imenso. Não só criamos indivíduos isolados de si mesmos, mas também uma cultura insensível, onde a empatia e a criatividade são sacrificadas em nome da produtividade e da aparência de força.

Mas acredito profundamente que há um caminho de volta. E esse caminho começa por permitir sentir – não só no consultório, mas também na sociedade como um todo. Quando nos reconectamos com as nossas emoções, abrimos espaço para uma humanidade mais autêntica, mais compassiva. E é aí, nesse espaço de conexão, que reside o verdadeiro potencial de cura e transformação.