É perceptível que acho a psicoterapia um espaço sagrado, não é?
Para mim, é um espaço onde vidas se desenrolam, onde feridas encontram voz, e onde o que parecia insuportável se transforma em algo que pode ser tocado, sentido, compreendido. No coração deste trabalho está a beleza da vulnerabilidade humana – e poucos entenderam isto tão profundamente como Richard Schwartz, criador do modelo Internal Family Systems.
Ultimamente tenho fugido um pouco da cognitiva-comportamental (mesmo das de terceira geração que eram o modelo com que trabalhava mais). Tenho-me dedicado muito ao trabalho da Diana Fosha e ao trabalho de Schwartz que é uma ode à complexidade do ser humano. Shwartz trouxe-nos a visão revolucionária de que dentro de cada um de nós vivem “partes” – partes que sentem, partes que protegem, partes que carregam dor. E o que é verdadeiramente bonito nesta abordagem é a compaixão radical com que estas partes são recebidas. Não há partes “erradas” ou “más”. Todas as partes têm uma intenção positiva, mesmo quando os seus métodos podem ser destrutivos. No fundo, estão apenas a tentar proteger-nos ou a carregar fardos que ficaram demasiado pesados.
É por isto que amo a psicoterapia: Porque seja com base no IFS, AEDP ou qualquer outra abordagem, é um ato de amor em ação. É um lugar onde aprendemos a sentar-nos com as nossas histórias, a ouvir as nossas vozes internas e a acolher tudo o que somos – mesmo aquilo que durante tanto tempo quisemos afastar ou negar. É uma dança delicada entre o acolher e o desafiar, entre o respeitar o ritmo do outro e, ao mesmo tempo, ajudá-lo a ir mais fundo, a ver mais claro, a sentir mais inteiro.
O que Schwartz nos ensinou é que não estamos “partidos”. O que parece caos ou conflito interno é, na verdade, uma tentativa de sobrevivência. Há uma harmonia subjacente dentro de nós, uma sabedoria que ele chama de “Self” – esse núcleo interno que é calmo, corajoso, compassivo e conectado. O trabalho da psicoterapia é, muitas vezes, ajudar as pessoas a reencontrarem esse Self, a confiarem que ele está lá, mesmo quando tudo parece confuso.
E não é isto uma das coisas mais bonitas que se pode testemunhar? A capacidade do ser humano de voltar a si mesmo, de transformar dor em força, de descobrir que há, afinal, um caminho para a reconexão. Como psicóloga aspirante a psicoterapeuta, sinto-me privilegiada por poder assistir a este processo, por ser uma ponte entre o sofrimento e a esperança, por criar um espaço onde algo novo pode nascer.
A psicoterapia é um ato de profunda humanidade. É o lugar onde damos significado ao que vivemos, onde aprendemos a aceitar as nossas sombras e a descobrir a luz que sempre esteve connosco. E o que Schwartz, Fosha e tantos outros gigantes da psicoterapia, nos mostram é que a cura não é sobre corrigir algo que está errado, mas sobre recuperar aquilo que já é inteiramente nosso.
A psicoterapia é bela porque nos lembra, de formas pequenas e grandes, que somos muito mais do que as nossas feridas. Somos inteiros. Somos capazes de amar e de ser amados. E, acima de tudo, somos capazes de nos transformar.
Por: Sophie Seromenho
Psicóloga Clínica, Professora e Autora dos livros “Basta de Autocrítica“, “Não é Loucura, é Ansiedade” e vários ebooks.
