Com a nova dimensão da Psicologia pos-covid, o mundo online expandiu muitas portas, desde permitir ganhar confiança a profissionais que não tinham tanta experiência clínica, como a dar alento e coragem aos profissionais mais tímidos…
Um novo mundo surgiu e como os processos de adaptação também fazem parte da vida dos psicólogos (não só da vida dos clientes), reinventámo-nos num mundo em evolução.
Para isso, contribuiu em grande parte o fenómeno das redes sociais (plataformas de acesso à informação e também por vezes desinformação ou informação não fidedigna), tendo nós psicólogos, encarado como missão a psicoeducação por esta via. Ou seja, desmitificar o acesso à saúde mental como um direito comum, clarificar conceitos, despatologizar as pessoas que recorrem ao psicólogo deixando de ser os maluquinhos, etc.
Neste processo de despatologizar, nós, psicólogos, podemos ter ido pela via de considerar a nossa própria vida como tendo traços desadaptativos e quiçá patológicos, por não aparecermos impecáveis nas redes, por estarmos cansados pelo volume de casos, por não termos agenda cheia, por precisarmos de investir em supervisão… Como falhas, que não nos permitir ser escolhidos pelos clientes.
Para inverter isso e aparecermos nas redes, começámos a permitir que o público nos conheça, para além do profissional. O lado pessoal, pois claro, para assim haver uma base de humanidade comum e empatia, tão importantes no vínculo terapêutico. Para assim dar, não só, credibilidade à mensagem passada, mas também acessibilidade, retirando a carga idealizada do profissional num pedestal e o cliente, como inferior.
Uma das ferramentas importantes em terapia é a capacidade de utilizarmos a relação terapêutica para empatizar e promover mudança, sendo que nalguns casos, optamos por revelar aspetos pessoais, sempre que o benefício for superior ao custo, para que o cliente se sinta menos isolado, mais compreendido e consiga ressignificar o que está a passar e empoderar-se.
O caráter positivo da auto revelação, utilizada com cuidado, foi espelhado para as redes sociais, em que se fala abertamente sobre a vida do profissional, para escolhermos com qual nos identificamos mais e podermos desidelizá-lo, ou seja, ter uma visão humana e aproximar a visão da psicologia como uma profissão próxima do dia a dia e das dificuldades com as pessoas.
Esta partilha tem vários possíveis caminhos: colocar pressão no psicólogo para agir de acordo com o que defende, sendo inflexível ou humanizar se, partilhando para benefício dos clientes, permitindo encarar os falhanços da vida, as frustrações e as ambivalências, que todos, como pessoas, vivemos. Desconstruindo a procura incessante pelas certezas, ilusórias de uma segurança, onde pouco floresce.
Será que estamos a ir pelo caminho onde a partilha é para benefício do cliente ou há um foco em mostrar resultados do psicólogo, numa pressão inatingível para angariar clientes e ter os posts mais atrativos, numa competitividade imensa?
Acrescento outra questão: Então porque não temos tanta compaixão connosco como promovemos aos clientes?
Por: Lúcia Menezes
Foco em Perturbação de ansiedade, humor, trauma complexo, luto e perturbação borderline e narcisista da personalidade
