No meu trabalho como psicóloga, tenho muitas vezes a oportunidade de acompanhar pacientes cuja intensidade emocional e instabilidade relacional me levam a explorar questões diagnósticas fundamentais, como distinguir entre perturbação de personalidade borderline (PPB) e perturbação bipolar. Esta diferenciação pode ser desafiadora, especialmente porque ambas as condições envolvem mudanças de humor e comportamentos impulsivos, mas para mim, as diferenças essenciais tornam-se claras quando mergulho na história relacional e emocional do paciente.

O que percebo em pacientes borderline é que o sofrimento está profundamente enraizado na relação – tanto com os outros como consigo próprios. É como se vivessem num estado de alerta constante, sempre à procura de sinais de rejeição ou abandono. A intensidade das suas emoções, por mais esmagadora que pareça, é incrivelmente reativa ao contexto. Pequenos eventos ou interações podem desencadear mudanças rápidas de humor e comportamentos impulsivos. No fundo, sinto que a questão principal que ressoa nesses pacientes é: “Posso confiar em ti? Vais rejeitar-me como os outros fizeram?”

Já em pacientes com bipolaridade, as mudanças de humor têm uma natureza diferente. Elas são episódicas, mais biológicas e menos dependentes do que acontece no momento. Por vezes, vejo esses pacientes a passar de uma fase maníaca – marcada por energia excessiva, impulsividade e comportamentos arriscados – para uma depressiva, onde se retraem e perdem a motivação, quase como se uma parte deles “desligasse”. Estas oscilações são menos reativas ao ambiente e mais marcadas por padrões de humor que duram semanas ou meses.

Uma das formas que me ajuda a diferenciar é focar na temporalidade e no contexto das mudanças emocionais:

  • Com os pacientes borderline, noto que o humor muda rapidamente, quase como uma reação ao que se passa entre nós na sala ou em situações fora da terapia. Estas oscilações são acompanhadas por sentimentos de vazio, medo intenso de rejeição ou conflitos internos sobre quem são.
  • Com os pacientes bipolares, vejo episódios claros e distintos de mania ou depressão, que não estão diretamente ligados a algo que aconteceu, mas sim a um padrão interno mais amplo. Entre episódios, muitas vezes consigo perceber uma maior estabilidade emocional.

Outro ponto onde presto muita atenção é na questão dos relacionamentos. Os pacientes borderline trazem para a terapia um padrão de instabilidade relacional que surge da tentativa desesperada de evitar o abandono e, simultaneamente, da dificuldade em manter vínculos seguros. Eles oscilam entre idealizar-me como terapeuta e, em certos momentos, desvalorizar-me ou sentir que os decepcionei. Para mim, este padrão reflete feridas profundas na forma como aprenderam a se conectar emocionalmente.

Por outro lado, pacientes bipolares podem também ter dificuldades nas relações, mas estas tendem a ser mais consequência dos seus episódios de mania ou depressão. Por exemplo, durante um episódio maníaco, comportamentos impulsivos podem causar danos nas relações, mas não vejo a mesma instabilidade constante na forma como percebem os outros ou como se conectam.

O meu foco vai sempre além do diagnóstico. Quero entender o mundo interno do paciente – o que é que ele sente, o que o ativa, como as suas experiências passadas moldaram os seus padrões atuais. Ao trabalhar com pacientes borderline, dedico muito tempo a construir um espaço seguro onde possamos explorar, juntos, o medo subjacente que alimenta a reatividade emocional e os padrões de rejeição. Ajudo-os a identificar as necessidades emocionais não atendidas por trás dos comportamentos impulsivos ou das explosões de raiva.

Com pacientes bipolares, o meu trabalho muitas vezes envolve ajudá-los a navegar as fases dos seus episódios, conectando-se novamente às suas emoções durante os períodos de estabilidade, para que possam integrar as suas experiências e construir ferramentas de regulação emocional.

Ambos os quadros, apesar de diferentes, têm algo em comum: um sofrimento profundo que merece ser acolhido e compreendido. Para mim, enquanto psicóloga, não é o diagnóstico que guia o trabalho, mas sim o encontro humano. Cada paciente é único, e o que mais me importa é a relação que construímos – um espaço onde eles podem sentir-se vistos, aceites e apoiados no caminho para a cura.