O trauma é um tema que me apaixona profundamente, talvez porque, como Gabor Maté tão brilhantemente aponta, ele é simultaneamente universal e profundamente individual. Todos nós, em maior ou menor grau, carregamos feridas que moldam a forma como vivemos, sentimos e reagimos. Na minha prática como psicóloga, vejo repetidamente como essas marcas se inscrevem não só na mente, mas também no corpo. Porque o trauma não é apenas aquilo que aconteceu – é a marca que ficou em nós, a resposta do nosso sistema ao que não foi processado, ao que não encontrámos forma de integrar.

Muitas vezes, quando falamos de trauma, ouvimos coisas como “está tudo na tua cabeça”. Mas nada podia estar mais longe da verdade. O trauma é visceral. Está gravado no corpo. É um sistema de alarme que ficou preso em modo “on”, mesmo quando já não estamos em perigo. E isso faz todo o sentido quando compreendemos que o corpo não distingue entre uma ameaça física e emocional, entre um perigo passado e um perigo atual. Para o corpo, perigo é perigo. Ele vai proteger-te, mesmo que essa proteção seja, por vezes, desnecessária ou desajustada ao presente.

Pensa num sobrevivente de um acidente de carro. Talvez não consiga lembrar-se exatamente de tudo o que aconteceu, mas sente o coração acelerar, as palmas das mãos a suar e o corpo a encolher só de pensar em entrar num carro outra vez. É como se o corpo dissesse: “Cuidado, não estás seguro.” Este tipo de reação é a memória do trauma, que muitas vezes não está organizada em palavras ou imagens claras, mas em sensações físicas e emocionais fragmentadas. Como Gabor Maté descreve, o trauma é menos sobre o evento em si e mais sobre o que acontece dentro de nós em resposta ao evento – o isolamento, a desconexão, a sensação de não termos apoio suficiente para processar o que vivemos.

Na minha prática, vejo como estas reações podem persistir durante anos, até mesmo décadas. O trauma mantém o corpo preso numa resposta de luta ou fuga. Este estado contínuo de alerta esgota-nos. Há pessoas que vivem num cansaço constante, com dores de cabeça inexplicáveis, problemas gastrointestinais, insónias, tremores, tensões musculares. Vejo frequentemente pacientes que chegam a mim depois de várias consultas médicas, sem respostas claras, e percebo que o corpo deles está a carregar o peso de um trauma que nunca foi resolvido.

E é aqui que entra a importância de reconhecer o impacto do trauma. Como psicóloga, procuro ajudar as pessoas a perceberem que estas respostas – o coração a bater depressa, o nó no estômago, a boca seca – não são sinais de fraqueza. São sinais de um corpo que, de forma brilhante e adaptativa, está a tentar proteger-te. Mesmo quando o perigo já passou, o teu sistema nervoso está apenas a fazer o trabalho para o qual foi desenhado. E esta perceção, este entendimento, pode ser um ponto de viragem na forma como te relacionas com o teu próprio corpo.

No trabalho que faço, o objetivo não é forçar o corpo a “parar” estas respostas, mas antes ajudá-lo a perceber que já não está em perigo. Como Gabor Maté também enfatiza, a cura começa quando conseguimos criar um espaço seguro – interno e externo – onde podemos sentir, processar e integrar o que ficou por resolver. Em sessão, trabalhamos lado a lado, com gentileza e intenção, para reconfigurar o sistema de alarme. Reconhecemos o impacto do trauma, honramos as defesas que o corpo construiu para te manter seguro, e criamos novas experiências que dizem ao corpo: “Agora estás em segurança.”

É um processo que pode ser desafiador, mas é também profundamente libertador. Quando olhamos para o trauma com compaixão e curiosidade, começamos a abrir espaço para a cura. E esse espaço não transforma apenas a forma como te sentes emocionalmente, mas também como o teu corpo respira, descansa e vive.

O trauma não tem de ser uma sentença. O corpo, tão sábio e resiliente, tem uma incrível capacidade de encontrar o caminho de volta à segurança. E eu acredito, do fundo do coração, que com o apoio certo, esse caminho é possível para todos nós. Não tens de viver para sempre no impacto do que aconteceu. Há sempre espaço para recomeçar.

— Por Sophie Seromenho | Marcar Consulta —

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