O trauma é uma ferida invisível que pode penetrar profundamente, deixando cicatrizes que não podem ser vistas a olho nu, mas que podem moldar profundamente a vida da pessoa. No entanto, há um tipo particular de trauma que merece atenção especial: o trauma complexo. Este tipo de trauma, muitas vezes negligenciado e mal compreendido, que não consta sequer nos manuais de diagnósticos mais recentes, merece ser destacado e discutido, pois afeta milhões de pessoas em todo o mundo e tem implicações significativas para a saúde mental e emocional.

O trauma complexo é caracterizado por experiências prolongadas de abuso físico, emocional ou sexual, que geralmente ocorre durante a infância ou em relacionamentos de longo prazo com figuras de autoridade (cuidadores e familiares, por exemplo). Embora a Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT) se caraterize pelo “desenvolvimento de sintomas característicos após a exposição a um ou mais acontecimentos traumáticos” e a maioria dos sintomas referenciados para diagnosticar o Trauma Complexo constituirem critérios para o diagnóstico de PTST, no DSM-5, estes critérios parecem ser insuficientes para definir o quadro clínico de algumas pessoas, tendo em conta a quantidade e complexidade de sintomas provenientes da exposição a diversos traumas e a presença de mudanças multidimensionais na personalidade que afetam a construção identitária. Neste sentido, os diferentes acontecimentos traumáticos geram variações nas manifestações clínicas. Um sobrevivente de um acidente de viação não manifesta clinicamente o mesmo que uma vítima de abuso, negligência ou abandono por parte dos cuidadores durante a infância.

Diversos autores têm adotado o termo Trauma Complexo, a fim de descrever a exposição a múltiplos eventos traumáticos de caráter interpessoal, repetitivo e crónico, que se prolongam no tempo e que têm uma origem mais. Tais eventos (por exemplo, violação, agressão física e tortura) que ocorrem em fases mais precoces e vulneráveis do desenvolvimento, particularmente na infância, englobam experiências de privação recorrentes que colocam a pessoa com uma constante sensação de perigo. Herman (1992) propôs o diagnóstico de Perturbação de Stress Pós-traumático Complexo (Complex Posttraumatic Stress Disorder) ou Perturbações de Stress Extremo Não Especificadas (Disorders of Extreme Stress Not Otherwise Specified – DESNOS), para diferenciar este tipo de trauma mais complexo e severo. Alguma da sintomatologia presente neste diagnóstico encontra-se descrita na secção “Características Associadas Que Suportam o Diagnóstico” de PSPT do DSM-5. Contudo, o Trauma Complexo suscita o surgimento de sintomas e consequências mais complexas do que aquelas desencadeadas por um evento traumático isolado. Indivíduos expostos a experiências traumáticas complexas, revelam perturbações psicológicas, cujos sintomas, como desregulação afetiva e dificuldades nas relações interpessoais, não estão incluídos nos critérios diagnósticos de PSPT.

Ilustração que demonstra ajuda mediante o trauma

O que torna o trauma complexo tão desafiante é a sua natureza insidiosa e penetrante. Em muitos casos, as vítimas de trauma complexo podem não reconhecer imediatamente os efeitos devastadores que essas experiências tiveram nas suas vidas. As feridas emocionais profundas causadas pelo trauma complexo podem manifestar-se de várias maneiras, incluindo depressão, ansiedade, problemas de relacionamento, distúrbios alimentares e até mesmo tentativas de suicídio.

Além disso, o trauma complexo pode afetar não apenas a pessoa que o sente, mas também as suas relações interpessoais, a sua capacidade de funcionar no trabalho ou na escola e a sua saúde física. As consequências do trauma complexo são amplas e duradouras, criando um ciclo de sofrimento que pode persistir por anos, se não for tratado adequadamente.

É fundamental que os profissionais de saúde mental e outros profissionais que trabalham com pessoas que sofreram trauma estejam devidamente treinados para reconhecer e tratar o trauma complexo de maneira eficaz. Isso inclui a implementação de abordagens terapêuticas baseadas em evidências, como a terapia cognitivo-comportamental, a terapia do esquema e a terapia de integração do trauma, que podem ajudar os sobreviventes a processar e curar as suas feridas emocionais profundas.

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