O seu filho mexe-se muito? Não pára quieto? Tem dificuldade em concentrar-se? Já recebeu um diagnóstico de défice de atenção? Já se falou em hiperatividade?

A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é uma condição neurobiológica caracterizada por sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade. É atualmente um dos diagnósticos mais comuns nas crianças, e pode ter um impacto significativo na vida académica, social e emocional das mesmas.

Com efeito, nunca é demais relembrar que um diagnóstico preciso é fundamental para garantir que a criança/jovem recebe o tratamento e o acompanhamento adequado. Como tal, a avaliação deve sempre ser realizada por um profissional qualificado, que irá considerar os sintomas da criança, o seu historial médico e familiar e o seu desempenho na escola.

Talvez agora se questionem: “mas qual é então a importância de relembrar e falar deste assunto?” **Resumindo, porque a qualidade dos diagnósticos atuais é cada vez mais questionável. Para efeitos de contexto, atualmente assistimos a um excesso de diagnósticos de PHDA, (mal diagnosticados!), o que necessariamente tem levado a um excesso de medicação destas crianças (mal medicadas!).

Apesar de a PHDA efetivamente ser uma condição digna de atenção por parte da comunidade no seu todo, é fulcral que o diagnóstico seja feito para além do preenchimento das escalas pelos pais, professores e família, uma vez que isso, por si só, não nos traz um diagnóstico verdadeiramente credível e fidedigno. Tanto assim é que atualmente temos vindo a assistir a um excesso de diagnósticos mal feitos. Muitas destas crianças e jovens, não têm PHDA, mas tão só uma necessidade de aprender a canalizar toda a sua energia motora, o que, claro, pode ser feito de muitas maneiras. Apenas a título de exemplo, o recurso a terapia e/ou desporto são ótimas formas de ajudar estas crianças e jovens, permitindo que se leve a cabo algum tipo de intervenção sem envolver medicação (medicação esta, diga-se, que é altamente prejudicial para o cérebro que ainda se encontra em desenvolvimento).

Ilustração que ilustra phda

Principalmente os meninos (as meninas também, é certo, mas os meninos mais, até porque a PHDA é mais comum no sexo masculino do que no sexo feminino) precisam da parte motora para conseguirem concentrar-se, o que muitas vezes dificulta o comportamento na sala de aula, mas não é necessariamente um sinal de transtorno ou perturbação.

À data de hoje é possível elencar algumas razões que poderão justificar este aumento de diagnósticos:

  1. Por um lado, de há uns anos para cá, tem-se observado uma tendência crescente de sedentarismo nas crianças e jovens. Ou seja, a energia que deveria ser utilizada, nomeadamente em atividades como brincar ou praticar um desporto, não está a ser consumida, e, por isso, tem de ser canalizada de outra forma. Tal leva a que as crianças/jovens a estarem mais “irrequietos”, mexerem-se muito, “não pararem”, serem impulsivos, etc… Por outras palavras, muitas vezes, estão só a gastar a energia que não gastam de outra forma.
  2. Outro fator que poderá estar a influenciar (e muito!) os diagnósticos errados de PHDA é o uso de ecrãs. Infelizmente, não é novidade que crianças cada vez mais novas se envolvem de maneira muito pouco saudável com as tecnologias (e.g. telemóvel, tablets, computador), sendo que também já é do conhecimento comum quais os efeitos adversos das mesmas. Desde o impacto que têm no desenvolvimento cerebral até ao impacto social, não me canso de referir que não nos preocupamos o suficiente com esta problemática, e os diagnósticos errados de PHDA são apenas mais um reflexo disso mesmo. É sabido que o uso de ecrãs, principalmente em idades mais precoces, influencia seriamente a capacidade de concentração, e a constante exposição a dispositivos eletrónicos pode gerar sintomas semelhantes aos da PHDA. Ou seja, na verdade, em alguns casos, as crianças não têm PHDA, mas sim demasiada exposição a dispositivos eletrónicos e pouco tempo de brincadeira.

No final do dia, tudo passa por voltar a ideais básicos, que nunca deveriam ter sido dados por garantidos. É crucial permitirmos que as crianças possam ter uma infância saudável, que brinquem, que caiam, que façam construções, que sejam criativas – no fundo, que se mexam! Que sejam o que são: crianças (!) e não “pequenos” robots que não se mexem, não “chateiam” e não fazem disparates. É preciso darmos um passo atrás e antes de partir para diagnósticos precipitados permitir que a criança/jovem tenha a oportunidade de se expressar e utilizar devidamente a sua energia, por exemplo, através do contacto com a natureza, do desporto, da brincadeira e da descoberta. Não podemos retirar tudo isto às crianças e esperar que não se verifiquem consequências.