O avanço tecnológico das últimas décadas tem transformado inúmeras esferas da vida quotidiana, e a psicologia não é exceção. A terapia online, tornou-se uma alternativa viável e popular, especialmente após a pandemia de COVID-19. Mas, quais são as implicações dessa nova modalidade? A terapia online é realmente eficaz, ou apenas uma solução paliativa? E mais importante: como ela moldará o futuro da saúde mental?

Uma das principais vantagens da terapia online é a acessibilidade. Pessoas que vivem em áreas remotas, com pouco ou nenhum acesso a psicólogos, agora podem receber atendimento especializado sem precisar viajar longas distâncias. Além disso, a terapia online oferece flexibilidade, permitindo que as sessões sejam agendadas de acordo com a conveniência da pessoa, o que pode ser um grande alívio para aqueles com horários apertados ou responsabilidades familiares.

No entanto, muitos questionam se a terapia online pode ser tão eficaz quanto a tradicional. A pesquisa até o momento sugere que sim. Estudos mostram que a terapia cognitivo-comportamental (TCC), uma das abordagens mais utilizadas na psicologia, é igualmente eficaz quando realizada online. Contudo, é importante notar que a eficácia pode depender de fatores como a qualidade da conexão, o nível de habilidade do terapeuta com a tecnologia e o conforto do paciente com o formato digital.

Ainda assim, um dos maiores desafios da terapia online é a manutenção da relação terapêutica. A conexão emocional entre terapeuta e cliente é uma componente crucial para o sucesso do tratamento, o que levanta questões acerca da viabilidade de criar o mesmo nível de empatia através de um ecrã. Embora a comunicação não verbal seja mais difícil de ser captada no ambiente virtual, os psicólogos podem desenvolver novas maneiras de expressar empatia e compreensão, garantindo que a essência da relação terapêutica seja mantida.

Outro dos desafios da terapia online são as questões de privacidade. Manter a confidencialidade da pessoa em um ambiente digital requer protocolos de segurança. Além disso, a ética no uso da tecnologia em contextos terapêuticos faz com que sejam necessário a utilização de ferramentas como o consentimento informado e a competência do terapeuta para utilizar ferramentas digitais para garantir a integridade do acompanhamento psicológico.

No entanto, olhando para o futuro, é provável que a terapia online continue a crescer e evoluir. Com o avanço da inteligência artificial, poderemos ver o surgimento de assistentes virtuais que ajudam no monitoramento do progresso do cliente ou até mesmo na aplicação de intervenções terapêuticas simples. No entanto, é essencial reforçar que essas inovações sejam utilizadas como complementos, e não substitutos, da interação humana, que é o cerne do processo terapêutico.

Assim, a terapia online é uma ferramenta poderosa que democratiza o acesso ao tratamento psicológico e oferece conveniência sem precedentes. No entanto, ela também traz desafios que precisam ser cuidadosamente considerados. À medida que a tecnologia continua a avançar, é fundamental que a psicologia mantenha seu foco no bem-estar do cliente, assegurando que a empatia, a ética e a eficácia permaneçam no centro da prática terapêutica. O futuro da terapia online é promissor, mas só será verdadeiramente benéfico se for abordado com cautela e responsabilidade.

— Por Filipa Freitas | Marcar Consulta —

A Minha Experiência com a Terapia Online

À medida que avançamos para o futuro esta nova forma como entendemos e buscamos ajuda para a nossa saúde mental solidifica-se e mostra-nos que veio para ficar. Percebemos que a terapia online não se tornou, em tempos inevitável, mas sim atualmente essencial.

Eu percebo, eu compreendo que ainda possas ter alguns receios, crenças e barreiras com esta forma de obteres ajuda, eu própria os tinha antes de iniciar. Pensei que seria difícil estabelecer a relação terapêutica, pensei na interferência de possíveis constrangimentos com a internet ou o local onde os meus clientes iniciassem a nossa sessão, questões de confidencialidade, ética e segurança e até mesmo pequenos detalhes de comunicação não verbal que poderiam passar despercebidos deste lado do ecrã. Ainda assim, considerei que poder continuar a acompanhar os meus clientes era o motivo para me iniciar nesta nova forma de cuidado.

Hoje, já passados 4 anos nesta modalidade consigo perceber e sentir as vantagens da terapia online. A possibilidade de aceder a cuidados de saúde mental a qualquer hora e em qualquer lugar remove barreiras significativas como a necessidade de deslocamento, a rigidez de horários, a acessibilidade para quem vive em zonas mais remotas, fora do país ou até mesmo para limitações a nível de mobilidade. Consigo perceber que a relação terapêutica em nada fica fragilizada, que a ética e confidencialidade são mantidas, que o suporte e apoio necessário são possíveis e os resultados são seguramente alcançáveis.

Mas não é a minha experiência que valida esta nova realidade profissional em desenvolvimento, já existe bastante investigação e evidência científica sobre a eficácia da intervenção psicológica através das novas tecnologias. A literatura mais recente tem confirmado as potencialidades da psicoterapia online, revelando resultados terapêuticos, satisfação com o tratamento, aliança terapêutica e redução de sintomas, ou seja, eficácia do tratamento tão positivas e efetivas como na psicoterapia face-a-face. A maioria dos estudos foca a sua investigação em perturbações de ansiedade, depressão e adições mostrando resultados efetivos na intervenção online. Desde a expansão da terapia online, surgiram também inúmeros guias e referenciais com recomendações para a prática profissional online. A própria Ordem dos Psicólogos Portugueses, aquando da pandemia, fez publicações neste sentido para que todos os profissionais que efetivam esta modalidade possam garantir um trabalho ético e de qualidade.

Se ainda tens dúvidas da eficácia da terapia online convido-te a experimentar, a colocar essas dúvidas, crenças e pensamentos de lado para através da tua experiência poderes então tirar as tuas conclusões.

  • Langarizadeh, M., Tabatabaei, M. S., Tavakol, K., Naghipour, M., Rostami, A., & Moghbeli, F. (2017). Telemental health care, an effective alternative to conventional mental care: A systematic review. Acta Informatica Medica, 25(4), 240–246. https://doi.org/10.5455/aim.2017.25.240-246
  • Mahoney, A., Li, I., Haskelberg, H., Millard, M., & Newby, J. M. (2021). The uptake and effectiveness of online cognitive behaviour therapy for symptoms of anxiety and depression during COVID-19. Journal of Affective Disorders, 292, 197–203. https://doi.org/10.1016/j.jad.2021.05.116
  • Taylor, C., Graham, A. K., Flatt, R. E., Waldherr, K., & Fitzsimmons-Craft, E. E. (2020). Current state of scientific evidence on Internet-based interventions for the treatment of depression, anxiety, eating disorders and substance abuse: an overview of systematic reviews and metaanalyses. European Journal of Public Health. https://doi.org/10.1093/eurpub/ckz208

— Por Verónica Rijo | Marcar Consulta —

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