Costumo dizer que o amor, no fundo, é uma dança entre duas necessidades humanas básicas: segurança e liberdade. Em sessão, tenho observado que, para o amor florescer, é necessário um solo firme onde a segurança é cultivada. Sem ela, a relação não cresce, e, se cresce, fá-lo de forma distorcida, às vezes dolorosa.

Tu já pensaste nisto? Segurança não significa viver numa bolha, sem margem para o risco, mas também não significa liberdade absoluta, onde cada um vive numa espécie de ilha emocional. Não, o amor que sustenta não é dependência nem independência extrema. É interdependência.

Talvez te reconheças em alguns dos exemplos que partilho aqui. Já vi casais que não conseguem respirar um sem o outro – vivem em fusão total. À primeira vista, parece adorável, mas, ao aprofundar, surge a ansiedade: é a insegurança a ditar as regras, disfarçada de proximidade. É o medo da perda que mantém estas pessoas juntas, não a verdadeira segurança.

No outro extremo, há quem defenda que a verdadeira força está na independência. Cada um tem a sua vida, os seus horários, os seus espaços. Nunca discutem. Parece saudável, não é? Mas, muitas vezes, essa “autonomia” é um refúgio: medo de proximidade, de vulnerabilidade.

O amor seguro vive entre estes dois polos. É um equilíbrio delicado. É podermos ser nós mesmos, inteiros, e escolhermos estar juntos, livres de medos que nos façam esconder ou sufocar. É saber que podemos crescer lado a lado, sem medo de sermos diferentes, sem medo de arriscar ou, se necessário, de deixar ir.

Há uma dinâmica muito comum em relações inseguras que, talvez, reconheças: um precisa de proximidade, o outro, de espaço. Parece paradoxal, mas é o padrão que mais vejo. O ansioso sente-se atraído pela independência do outro. No início, admira essa força. O evitante sente-se cativado pela intensidade emocional do ansioso. Parece emocionante, diferente. Mas, com o tempo, essa dinâmica torna-se destrutiva. Quanto mais o ansioso procura, mais o evitante foge. E quanto mais o evitante se distancia, mais o ansioso entra em desespero. Um ciclo.

O que nos traz a estas dinâmicas? A nossa história. O amor – seguro ou inseguro – não começa nas relações amorosas, mas nas primeiras relações que temos, com os nossos pais ou cuidadores. É aí que aprendemos o que significa ser amado, o que significa estar seguro.

E, sim, isso pode ser transformado. É por isso que acredito tanto no potencial humano. Cada relação que tens, cada passo que dás, é uma oportunidade para reparar, para crescer. É preciso coragem, claro. Coragem para olhares para ti mesmo, para reconhecermos os nossos padrões, para assumirmos que queremos fazer melhor.

Às vezes, os casais que me procuram vivem numa espécie de “insegurança confortável”. Não é bom, mas é familiar. É o que aprenderam. É o que sabem. Sair daí parece assustador, mas é possível. É possível criar uma base de segurança saudável, onde o amor próprio e o amor pelo outro possam coexistir.

E tu, estás disposto a tentar? Estás pronto para questionar aquilo que sempre conheceste, para desafiar os teus padrões e construir algo mais sólido, mais verdadeiro?

O amor começa connosco. E quando olhamos para nós mesmos com compaixão, o amor que oferecemos aos outros transforma-se. Vamos a isso?

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