A violência no âmbito da parentalidade é uma prática que, infelizmente, ainda persiste em muitas famílias e que reflete um grave problema a nível social e cultural. Violência esta que é realizada tanto por parte dos pais para os filhos como vice-versa.

É inegável que educar e cuidar de uma criança é um desafio, mas o uso da violência como método de disciplina nunca deveria ser uma opção. Esta prática, além de violar os direitos fundamentais da criança, também perpétua ciclos de trauma e insegurança emocional que podem afetar a vida adulta e as relações.

Historicamente, a violência já foi vista como uma forma legítima de impor limites, ensinar valores e educar. Com efeito, até há relativamente poucos anos era amplamente aceite na sociedade portuguesa, o uso da força física como meio educacional (quantos de nós já não ouvimos as histórias dos nossos pais e avós de quando levavam reguadas na escola?). Contudo, nos dias de hoje, e com os estudos que têm vindo a ser feitos nesta área, está provado que os efeitos desse tipo de práticas são devastadores.

Crianças que crescem em ambientes violentos têm maior propensão para o desenvolvimento de perturbações psicológicas, baixa autoestima e muitas dificuldades em estabelecer relações saudáveis e limites. Além disso, muitas vezes, crescer em ambientes onde existe violência, leva à reprodução destes mesmos comportamentos na vida adulta, reforçando, desta forma, o ciclo de violência intergeracional.

Comentários como, “Eu também levei umas palmadas e não morri.”; “Isso é falta de palmadas.” (e tantos outros), abrem uma porta muito delicada uma vez que, em “último caso”, essa será uma solução ainda dentro dos limites do aceitável.

Quando a situação escala a ponto de se pensar que tem de se usar a violência para  a controlar, isto é muito mais uma limitação do adulto do que da criança. Porquê? Porque o adulto é que não está a ser capaz de controlar/ lidar com a situação. Recorrer à violência  abre um precedente perigoso uma vez que, sempre que necessário, numa situação mais extrema, esse recurso vai voltar a ser utilizado, evitando que se tentem usar outras estratégias para lidar com a situação e educar de forma mais consciente.

É essencial destacar que existem formas mais saudáveis e eficazes de educar. O diálogo, a empatia e a consistência nas regras são ferramentas poderosas na construção de uma parentalidade positiva. Estas abordagens não apenas ensinam os limites necessários para a convivência em sociedade, mas também fortalecem os vínculos familiares e promovem o desenvolvimento emocional saudável da criança. Muitas vezes, o uso da violência, é feito por pais que não estão bem emocionalmente, pais que também sofreram com pais violentos, que não aprenderam a gerir conflitos de forma assertiva e que não possuem autocontrolo. Por isso é que, em muitos casos, estes problemas acabam por ser trangeracionais e os ciclos perpetuam-se. Não é que as pessoas queiram ser violentas, mas não aprenderam a gerir conflitos de outra forma, de forma mais saudável e empática, daí ser muito mais uma limitação de quem é violento/agressivo.

Superar a violência na parentalidade exige um esforço coletivo. É necessário promover a conscientização sobre os malefícios causados por práticas violentas e garantir que pais e cuidadores tenham acesso a apoio, educação e recursos para adotar estratégias de cuidado mais respeitosas e amorosas.

Educar com amor e respeito não é apenas um direito da criança, mas também um compromisso que devemos assumir como sociedade para formar indivíduos mais equilibrados, empáticos e preparados para lidar com os desafios inerentes à vida.