Começando por desconstruir conceitos, educar pela positiva é uma abordagem que coloca o respeito, o carinho e o incentivo ao desenvolvimento emocional da criança no centro do processo educativo. Esta forma de educação é fundamental na medida em que promove um ambiente onde as crianças podem aprender não só regras e limites, mas também valores como: (1) empatia; (2) autocontrolo e (3) responsabilidade.

No entanto, desengane-se quem pense que a ideia é simplesmente evitar castigos ou dizer sempre “sim”. Pelo contrário, a intenção por detrás desta abordagem é construir uma relação de confiança e diálogo entre pais, educadores e crianças. Por outras palavras, educar pela positiva não é sinónimo de permissividade em todas as situações. No entanto, atualmente, é comum perder-se o verdadeiro sentido desta abordagem educacional ao associar a educação positiva com a ausência de limites ou a ideia de que as crianças podem fazer tudo o que quiserem. Na realidade, educar pela positiva está muito mais relacionado com estabelecer limites claros, consistentes e, ao mesmo tempo, respeitosos.

Dizer “não” também faz parte desse processo educativo, pois ajuda a criança a entender que há consequências para suas ações, a lidar com sentimentos de frustração e que a vida é regida por regras. A grande diferença é a forma como esse “não” é transmitido. Um dos grandes pontos a favor da educação pela positiva é que este método ajuda a fortalecer a autoestima das crianças. Quando recebem orientações com paciência e compreensão, estas sentem-se valorizadas e apoiadas, o que promove o desenvolvimento de sua autoconfiança. Em vez de crescerem a temer as consequências dos seus erros ou sem consequências de todo, aprendem a vê-los como oportunidades de crescimento e aprendizagem.

Na educação positiva, o objetivo é ensinar de maneira empática e compreensiva, oferecendo explicações adequadas à idade da criança e alternativas para que ela possa aprender com os erros. Ao invés de simplesmente negar sem justificação ou ser autoritário, o adulto assume o papel de guia, mostrando à criança que nem tudo será sempre como ela deseja, mas que há maneiras construtivas de lidar com a frustração. Além disso, o foco não está em punir/ castigar, mas em corrigir e orientar para que a criança desenvolva autocontrolo, responsabilidade e empatia.

Com efeito, a questão da frustração é bastante frequente em consulta e cada vez temos mais crianças e jovens com sérias dificuldades em lidar com estas emoções mais complexas, ou ditas “emoções negativas”. Assim, e enquanto profissional da área, parece-me importante repensar na forma como nós, adultos, lidamos com estas crianças e jovens, porque claramente não está a resultar.

Quando se bate, quando se grita, quando não se respeita uma criança/ jovem, e somos só autoritários, isso traduz-se muito mais numa limitação do adulto em gerir a situação, do que da criança. A educação positiva valoriza o respeito pelos sentimentos da criança, ao mesmo tempo em que coloca limites firmes e justos. O que, repete-se, contribui para que a criança aprenda a conviver em sociedade de maneira mais equilibrada, entendendo a importância de respeitar o espaço e os direitos dos outros. Outro ponto crucial é que, ao educar pela positiva, os adultos servem de modelo para a resolução de conflitos de forma pacífica. Em vez de recorrer ao autoritarismo ou à punição severa, a educação positiva mostra que é possível resolver problemas por meio do diálogo e da cooperação (competências importantíssimas para a vida). Assim, as crianças vão ganhar as ferramentas necessárias para se tornarem adultos mais empáticos e preparados para viver em comunidade. Isto dito, podemos concluir que a educação positiva vai além de ensinar comportamentos corretos; cria um ambiente propício para o desenvolvimento emocional saudável, moldando cidadãos mais conscientes, responsáveis e preparados para enfrentar os desafios da vida com resiliência e compaixão.

A educação pela positiva é frequentemente mal entendida porque muitas pessoas associam essa abordagem à permissividade ou à falta de disciplina. O equívoco mais comum é, como já se disse, acreditar que educar pela positiva significa dizer sempre “sim” às crianças, permitindo que façam o que quiserem sem impor limites ou regras. Um dos fatores que contribui para esse mal-entendido é a confusão entre ser gentil e ser permissivo. A educação pela positiva promove a gentileza, a paciência e o respeito no trato com as crianças, mas isso não quer dizer que os adultos deixem de estabelecer limites claros e consistentes. Pelo contrário, essa abordagem defende que as crianças precisam de orientação firme, mas feita de maneira respeitosa e empática, sem recorrer a gritos, punições severas ou castigos humilhantes. Até porque, como todos sabemos, ao longo de toda a nossa vida vamos encontrar limites, e é fundamental aprender a lidar com essa realidade desde tenra idade.

Outro motivo pelo qual a educação positiva é mal compreendida está na dificuldade de mudança de mentalidade. Durante gerações, muitos pais e educadores foram ensinados a acreditar que a disciplina eficaz depende de punições rígidas e de uma abordagem autoritária, muitas vezes fisicamente violenta. Essa visão faz com que a educação positiva, que se concentra na correção dos comportamentos através do diálogo e do exemplo, pareça ineficaz ou “fraca”. Além disso, o desafio de aplicar a educação positiva no dia-a-dia pode levar ao mal-entendido. Manter a calma e ser paciente diante do comportamento desafiador de uma criança requer esforço e prática, e muitos podem ver isso como uma abordagem “lenta” ou impraticável. Esse processo requer tempo, pois o foco está no desenvolvimento emocional da criança a longo prazo, e não em resultados imediatos.

Como adultos, e intervenientes diretos na educação das nossas crianças, cabe-nos a nós a autodisciplina de educá-las da melhor forma possível, ainda que, por vezes, tal requeira tempo e disponibilidade mental que nem sempre as nossas vidas atarefas nos permitem. Temos um papel essencial no desenvolvimento das futuras gerações de adultos e a educação positiva, quando praticada de forma bem pensada e coerente, tem, sem dúvida, os resultados mais positivos.

— Por: Mafalda Hormigo | Marcar Consulta —

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