A depressão, na minha perspetiva, é como um estado de desconexão profunda – desconexão do Eu, dos outros e do mundo. É uma perda de acesso àquilo que nos mantém ligados emocionalmente à vida.
Internamente, a depressão é como um afastamento das emoções, especialmente daquelas mais difíceis, como a tristeza, a dor ou a raiva, porque, em algum momento, essas emoções foram vistas como intoleráveis ou ameaçadoras. É um “desligar” emocional, que embora protetor, cria um vazio, uma dormência que elimina também o acesso às emoções positivas, como a alegria ou o amor, deixando a pessoa presa num estado de anestesia emocional.
Relacionalmente, a depressão corta os laços que nos conectam aos outros, não porque as pessoas desapareçam, mas porque a ponte emocional que nos une a elas parece quebrada. “Incompreendidos”, “isolados”, “sozinhos” são os adjetivos mais utilizados pelos meus pacientes, como se ninguém pudesse realmente suportar ou validar a dor que sentem. Este isolamento emocional é frequentemente o eco de experiências passadas em que as suas necessidades de proximidade foram ignoradas ou invalidadas, que está a criar uma barreira que dificulta a busca de conforto e conexão.
A depressão desliga-nos do mundo em termos de propósito e pertença. Sem emoções e sem relações, o sentido de significado evapora-se, deixando a vida sem cor, sem energia, sem propósito. Exacerbada por uma sociedade que valoriza a produtividade acima da presença, o fazer acima do ser, o que reforça a sensação de irrelevância e a perda de um lugar no tecido da vida.
Se a depressão é a doença da desconexão, então a cura reside na reconexão. Certo? Acredito que essa reconexão começa com a criação de um espaço seguro, onde o paciente se sinta visto, compreendido e aceito. Quando essa segurança é estabelecida, o vazio começa a ser preenchido pela experiência de ser acompanhado.
Reconectar-se consigo mesmo implica recuperar o acesso às emoções, começando por permitir que pequenas doses de tristeza, raiva ou dor reprimida possam ser sentidas e processadas. Este processo liberta a energia vital que as emoções carregam e abre caminho para a renovação.
Reconectar-se com os outros significa usar a relação terapêutica como um espaço para experimentar novas formas de ligação, onde o paciente percebe que as suas emoções podem ser toleradas e aceitas sem rejeição. Esta experiência relacional reparadora ajuda a reconstruir a ponte emocional com os outros e oferece um modelo para futuras relações.
A reconexão com o mundo ocorre quando as emoções são integradas e as relações fortalecidas, permitindo que a curiosidade, a criatividade e o desejo de viver voltem a emergir. O mundo, então, começa a parecer menos ameaçador e mais como um lugar onde é possível existir plenamente.
A depressão é, no fundo, um estado de proteção contra a dor, mas com o suporte certo, essa proteção pode ser suavizada, permitindo que a pessoa redescubra a ligação consigo mesma, com os outros e com o mundo. Este processo, embora desafiador, é profundamente transformador, e para mim, a verdadeira alegria do trabalho terapêutico está em testemunhar esta transição da desconexão para a reconexão, da dormência para a vitalidade.
Por: Sophie Seromenho
Psicóloga Clínica, Professora e Autora dos livros “Basta de Autocrítica“, “Não é Loucura, é Ansiedade” e vários ebooks.
