Nos últimos tempos, tenho refletido muito sobre o que realmente significa curar em terapia. Num mundo cheio de estratégias, técnicas e ferramentas que prometem soluções rápidas, é fácil perder de vista a essência do que fazemos como terapeutas.

Trabalhando com o modelo AEDP (Psicoterapia Dinâmica Experiencial Acelerada), que tem sido o modelo com que tenho trabalhado mais ultimamente, tenho sentido cada vez mais que a cura não se encontra apenas em métodos ou planos estruturados. Claro, as técnicas ajudam. Mas o coração da terapia, aquilo que transforma verdadeiramente, é a relação.

E há ciência que sustenta isto. Estudos sobre os fatores comuns em psicoterapia mostram que cerca de 30% dos resultados terapêuticos são determinados pela qualidade da relação terapêutica, mais do que qualquer técnica ou abordagem específica (Lambert, 1992). Quando os pacientes sentem que podem confiar no terapeuta, quando se sentem seguros e aceites, é aí que as barreiras começam a cair e o trabalho profundo pode realmente começar.

No modelo AEDP, o foco está exatamente nisto: ajudar o paciente a sentir-se seguro o suficiente para enfrentar e transformar experiências emocionais dolorosas. Muitas vezes, os pacientes carregam dentro de si narrativas de ameaça que foram construídas ao longo de anos:

“Não sou digno de amor.”
“Os meus sentimentos não importam.”
“Se me abrir, vou ser magoado.”

Estas narrativas, profundamente enraizadas no sistema nervoso e na memória emocional, são o que mantêm os pacientes presos em ciclos de sofrimento. A investigação em neurociência afetiva, liderada por autores como Jaak Panksepp e Allan Schore, mostra que o cérebro humano é moldado por experiências relacionais desde o início da vida. Traumas, negligência ou rejeição criam padrões de ameaça que são ativados em momentos de vulnerabilidade.

O que fazemos na terapia é criar uma relação que oferece o oposto: segurança. Quando o terapeuta é uma presença empática, atenta e responsiva, o sistema nervoso do paciente pode começar a regular-se. Essa segurança relacional permite que emoções como tristeza, medo ou raiva — muitas vezes evitadas ou suprimidas — possam ser sentidas, processadas e, finalmente, transformadas.

E como é que isso acontece? Através de experiências emocionais corretivas. Por exemplo, quando um paciente expressa uma emoção difícil e encontra acolhimento em vez de julgamento, está a reescrever no seu cérebro um padrão antigo de rejeição. É assim que, aos poucos, as narrativas de ameaça dão lugar a narrativas de segurança:

“Sou visto e aceite como sou.”
“Os meus sentimentos são válidos.”
“Posso confiar nas minhas emoções.”

Este processo não é instantâneo, mas é incrivelmente poderoso. A neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de mudar e reorganizar-se ao longo da vida — permite que estas novas experiências deixem marcas profundas, reconfigurando tanto as memórias emocionais como as respostas automáticas ao stress.

Enquanto terapeutas, o nosso papel não é “consertar” o paciente ou aplicar soluções mágicas. É estar presentes, criar um espaço seguro e facilitar a exploração de emoções e narrativas com compaixão e autenticidade. A cura não é algo que damos ao paciente, mas algo que ajudamos a emergir a partir de dentro.

Se este tema te ressoa, seja como paciente ou terapeuta, deixo-te esta questão: Como podemos criar mais momentos de segurança emocional, tanto em terapia como nas nossas relações do dia a dia?

Obrigada por confiares neste espaço para refletirmos juntos.

Referências:

Lambert, M. J. (1992). Psychotherapy outcome research: Implications for integrative and eclectic therapists.

Schore, A. N. (2003). Affect Regulation and the Repair of the Self.

Panksepp, J. (1998). Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions.