Trabalhar com pacientes cujos padrões emocionais e relacionais são profundamente enraizados apresenta desafios únicos e transformadores. Estes padrões, muitas vezes rígidos, surgem como estratégias de sobrevivência desenvolvidas em contextos de adversidade, mas acabam por se perpetuar de forma desadaptativa, gerando ciclos interpessoais de frustração e dor. Esses mesmos ciclos afetam tanto o paciente como os que se relacionam com ele, incluindo o terapeuta, que se vê frequentemente convidado a navegar num espaço emocional intenso e, por vezes, desconfortável. Contudo, é precisamente na relação terapêutica que reside o maior potencial para uma mudança significativa.
Estes pacientes, sem intenção, tendem a ativar em nós, terapeutas, reações fortes que podem refletir o que vivem nas suas relações exteriores. Sentir frustração, impaciência ou até mesmo um desejo de afastamento não é raro. Essas reações contratransferenciais devem ser vistas como erros, mas como pistas valiosas para compreender a experiência do paciente e a dinâmica relacional que se desenrola no momento. O primeiro passo é reconhecer e explorar estas emoções internamente, questionando: “Por que estou a reagir assim? O que é que este momento está a dizer sobre mim e sobre o que o paciente está a trazer para a nossa relação?” Em vez de evitarmos ou reagirmos automaticamente, procuramos usar este desconforto como uma oportunidade de autorreflexão e crescimento, tanto para nós como para o paciente.
Por detrás dos comportamentos defensivos e dos padrões rígidos do paciente existe uma história de adaptação emocional. Muitos destes comportamentos foram desenvolvidos num momento em que eram necessários para proteger a pessoa de ambientes difíceis, de relações marcadas por ausência de validação ou até por trauma. Com o tempo, estas estratégias protetoras tornaram-se automáticas, afastando o paciente não só dos outros, mas também de si próprio. Reconhecer esta história permite-nos cultivar uma curiosidade compassiva que vai além do comportamento imediato. Em vez de nos focarmos na superfície – a agressividade, o distanciamento ou a provocação – procuramos entender o que está por baixo: “O que é que esta pessoa precisou de fazer para sobreviver? Que necessidades ficaram por satisfazer e continuam a manifestar-se de formas desadaptativas?”
O papel do psicólogo deve ser profundamente transformador. Antes de mais, é essencial que este consiga regular as suas próprias emoções durante o processo. As reações automáticas – como criticar, distanciar-se ou reagir defensivamente – podem reforçar as expectativas negativas do paciente, que frequentemente já espera ser rejeitado, desvalorizado ou culpabilizado. Respirar fundo, encontrar estabilidade interna e responder de forma deliberada, com presença e empatia, é essencial para criar um espaço seguro. Neste espaço, validamos o esforço que as defesas do paciente representam – o reconhecimento de que estas estratégias foram cruciais em momentos de adversidade – e ajudamos a refletir, de forma cuidadosa e colaborativa, sobre como esses mesmos padrões podem estar a contribuir para o sofrimento atual.
É importante também identificar as necessidades subjacentes que o paciente muitas vezes não consegue reconhecer ou verbalizar. Por detrás de comportamentos mais desafiantes, como a desconexão emocional ou a agressividade, existe quase sempre um desejo de proximidade, de validação ou de ser compreendido. O terapeuta pode ajudar a construir uma ponte entre o comportamento externo e as emoções profundas que o alimentam, permitindo ao paciente aceder a essas partes de si que foram negadas ou protegidas durante tanto tempo. Este processo deve ser conduzido com delicadeza, partilhando observações como hipóteses e não como verdades absolutas, e criando um espaço para que o paciente explore o seu mundo interno em segurança.
Este trabalho não é apenas exigente para o paciente; é também profundamente desafiante para o terapeuta. Por isso, é crucial que quem trabalha com pacientes com dificuldades estruturais tenha acesso a supervisão e apoio contínuos. Supervisores experientes podem ajudar a conter as frustrações e dificuldades que surgem, permitindo que o terapeuta se sinta acompanhado e fortalecido no processo. Com este suporte, é possível transformar experiências de grande intensidade emocional em momentos de crescimento pessoal e profissional, tornando o trabalho com estes pacientes não só exigente, mas também profundamente gratificante.
A essência deste trabalho é nunca desistir do paciente. Eles precisam de nós e do nosso investimento, da nossa capacidade de acreditar no seu potencial para mudar, mesmo quando eles próprios têm dificuldade em fazê-lo. Ao oferecer-lhes a experiência de uma relação segura, empática e transformadora, estamos a abrir portas para que possam reencontrar-se, flexibilizar os seus padrões e aceder a um modo de vida mais conectado e satisfatório.
Por: Sophie Seromenho
Psicóloga Clínica, Professora e Autora dos livros “Basta de Autocrítica“, “Não é Loucura, é Ansiedade” e vários ebooks.
