Quando fazemos uma leitura superficial e pouco esclarecida acerca da psicologia positiva, quando mergulhamos nas redes sociais onde o pensamento positivo é lei perante tudo o que acontece. Quando fazemos scroll constante em vidas, trabalhos e relações “perfeitos”, sempre rodeados de “felicidade” e “positivismo” facilmente caímos na armadilha desta era.
Assumir emoções negativas torna-se um sinal de alerta, uma “fraqueza”, uma fragilidade e muitas vezes um veículo para nos quererem ajudar ou incentivar a procurar ajuda por “certamente termos um problema” em não conseguir olhar para o lado positivo e feliz da vida em qualquer situação. É como se a frustração, a raiva, a vergonha, a tristeza, a ansiedade ou o medo não fizessem parte de um reportório básico de emoções humanas que nos ajudaram e ajudam a evoluir.
Negarmos o que sentimos, escondermos estas emoções, olharmos para nós como “defeituosos” quando as sentimos e não dar espaço para as processarmos e vivermos é impedir aprendizagem, é impedir evolução, é impedir resiliência, isto sim é adoecermo-nos. As emoções reprimidas podem ser somatizadas pelo corpo em forma de doença, quando negamos as emoções elas encontram esta alternativa para se expressarem, para nos mostrar que algo precisa de ser alterado, que algo está a interferir com as nossas necessidades, que algo precisa de evoluir, que algo precisa de ser aprendido, que algo nos está a fazer mal, que algo está a interferir com o nosso bem-estar. Suprimir estas emoções esgota-nos física e mentalmente.
Construir uma atitude positiva passa exatamente por reconhecer e experienciar estas emoções das quais queremos fugir e “deixar adormecer”. Aprender e evoluir aceitando e reconhecendo estas emoções “negativas” é o caminho que nos leva à ação e ao progresso. Aceitar que somos humanos, aceitar que estas emoções fazem parte da nossa vida e são úteis para nos fazer evoluir, aprender e viver humanamente. Se fossemos felizes o tempo todo talvez nem nos apercebêssemos de como é bom estar feliz, talvez banalizássemos este sentimento.

Vivemos uma era em que muitos sofrem, a ansiedade, frustração, o medo, a incerteza, o stress são comuns. É bom pensar que tudo vai correr bem mas isso não significa que o processo menos agradável não aconteça, vai acontecer mas vai passar.
Estar em situações emocionalmente difíceis por isso só já nos pode fazer sentir sozinhos e isolados, quando são familiares e amigos a “silenciar” estas emoções (“não penses mais nisso” “vai ficar tudo bem”) é duro e dói muito. Da próxima vez que alguém partilhar contigo sentimentos negativos, em vez de te centrares em passar um pensamento positivo, em vez de te centrares naquela que achas que é a tua “função” para que a pessoa se sinta melhor espera. Espera e reflete um pouco sobre o desconforto e medo daquela pessoa e ouve-a atenta e genuinamente, não tentes apenas eliminar rapidamente aquele sentimento ou conversa “desconfortável”.
A raiva surge quando nos sentimos injustiçados, ameaçados ou frustrados. A tristeza está relacionada a perdas ou desilusões. O medo e a ansiedade surgem em situações que percecionamos como ameaçadoras ou desconfortáveis. A vergonha mostra que te sentes inadequado/a ou julgado/a negativamente. As emoções são a forma do corpo comunicar, mostram-te que precisas de regular as tuas necessidades, precisas de alterar algo, de colocar limites, de procurar apoio, de ouvir, entender e validar estas emoções.
Mais honestidade, mais vulnerabilidade, mais autenticidade! Aceitar que é ok não estar ok, é normal, e não podemos nem devemos estar positivos o tempo todo, não podemos nem devemos negar a nossa natureza. Mas não posso deixar de referir que também devemos reconhecer quando precisamos de ajuda para o fazer, saber viver, compreender e aceitar o nosso sofrimento não significa romantizá-lo ou negá-lo quando ele nos incapacita e impacta a nossa vida diária.
Por: Verónica Rijo
Psicóloga Clínica focada em Perturbações de Ansiedade e do Humor, Luto, Autoestima e Autoconhecimento.
