Uma das explicações mais impactantes para os problemas psicológicos que podemos estar a enfrentar na vida adulta pode estar relacionada ao facto de nos nossos primeiros anos nos ter sido negada a possibilidade de sermos plenamente nós mesmos. Ou seja, não nos ter sido permitido expressar livremente a nossa teimosia e frustração, nem ser exigentes, agressivos, intolerantes ou egoístas na medida em que precisávamos para o nosso desenvolvimento emocional. Como os nossos cuidadores estavam demasiado sobrecarregados ou afetados por outras preocupações, acabámos por ter de nos ajustar às suas necessidades, aprendendo que apenas seríamos aceites e amados se agíssemos de acordo com as suas expectativas.
É importante clarificar o conceito de self como a essência de cada um, para se poder falar de falso self. Assim, o self será o “eu” e a integração da totalidade de mim mesma. A teoria do verdadeiro e do falso self foi desenvolvida pelo psicanalista inglês Donald Winnicott, um dos mais influentes pensadores do século XX. Com base em observações detalhadas dos seus pacientes, tanto adultos como crianças, Winnicott, ao longo da década de 60, formulou a ideia de que um desenvolvimento saudável depende da possibilidade de vivenciarmos um período em que não precisamos de nos preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam de nós. Durante esse período, podemos expressar plenamente o nosso “verdadeiro self”, sem culpa, pois aqueles que nos rodeiam ajustam-se às nossas necessidades, independentemente do quão exigentes ou desafiadoras sejam.
Winnicott expressa este fenómeno comparando a formação do falso self com uma casca de árvore, às custas da qual cresce e se desenvolve o self oprimido do sujeito: “O indivíduo desenvolve-se mais como uma extensão da casca do que do núcleo. O verdadeiro self permanece escondido, e o que temos de enfrentar clinicamente é o falso self, cuja missão é ocultar e até proteger o verdadeiro”. O falso self aprendeu que tem de ser assim para ser aceite, amado, estar seguro e esconde o verdadeiro self – sintonizado com as emoções mais profundas e sinceras, os verdadeiros desejos e vontades e com as reais necessidades básicas emocionais.
No entanto, o falso self pode levar a uma sensação de vazio e falta de autenticidade, além de dificultar o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis e significativos. O objetivo da psicoterapia caso é ajudar as pessoas a reconhecer e integrar o seu verdadeiro self, permitindo uma vida mais autêntica e satisfatória.
Por: Daniela Lopes
Psicóloga Clínica dedicada a trauma, luto, perturbação de ansiedade e de personalidade.
