Ao longo da última década, tem havido um aumento no número de adultos diagnosticados com PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, mais conhecida como ADHD, na sigla em inglês, ou TDAH, em português do Brasil). A PHDA é uma perturbação do comportamento, de base genética, em que estão implicados diversos fatores neuropsicológicos, que provocam alterações de atenção, de impulsividade e/ou uma grande atividade motora. Trata-se de um problema generalizado, com repercussões no desenvolvimento, na capacidade de aprendizagem e no ajustamento social.

A distratibilidade, a desorganização e a impulsividade da perturbação de hiperatividade e défice de atenção causam dificuldades e desafios em muitas áreas da vida adulta, mas estes sintomas podem ser particularmente prejudiciais quando se trata de relações mais próximas, principalmente se os sintomas do PHDA nunca tiverem sido devidamente diagnosticados ou tratados.

Se és a pessoa com PHDA, poderás sentir que estás constantemente a ser criticado/a e repreendido/a. Não importa o que faças, nada parece agradar à outra pessoa. Não te sentes respeitado como adulto e gostarias que o teu outro significativo pudesse relaxar um pouco e parasse de tentar controlar todos os aspetos da tua vida. Se estás numa relação com alguém que tem PHDA, podes sentir-se sozinho/a, ignorado/a e despreciado/a. Estás cansado/a de cuidar de tudo sozinho/a e ser a única parte responsável na relação. Não sentes que podes confiar na outra pessoa porque parece não seguir as promessas e vês-te forçado/a a emitir constantemente lembretes e exigências, ou então apenas fazer as coisas sozinho/a. Por vezes parece que a outra pessoa simplesmente não se importa.

É importante ver como os sentimentos de ambos os lados podem contribuir para um ciclo destrutivo na relação. Podem construir uma parceria mais saudável e feliz, aprendendo sobre a função que a PHDA desempenha na vossa relação e como ambos podem escolher formas mais positivas e produtivas de responder aos desafios e comunicar entre vocês.

Melhorar a vossa relação começa com a compreensão do papel que a PHDA desempenha. Depois de puderem identificar como os sintomas estão a influenciar as vossas interações como casal, podem aprender melhores formas de responder. Para o/a parceiro/a com PHDA, isto significa aprender a gerir os seus sintomas. Para o/a parceiro/a sem PHDA, isto significa aprender como reagir às frustrações de formas que incentivam e motivam a outra pessoa.

Alguns exemplos de sintomas que podem trazer dificuldades para a relação:

Dificuldade em prestar atenção. Se tens PHDA, podes distrair-te durante as conversas, o que pode fazer com que a outra pessoa se sinta ignorada e desvalorizada e que não sentes interesse por ela.

Esquecimento. Mesmo quando alguém com PHDA está a prestar atenção, mais tarde pode esquecer-se do que foi prometido ou discutido e a outra pessoa pode começar a sentir que não se importa ou que não é de confiança.

Dificuldade na organização. Isto pode levar à dificuldade de terminar as tarefas, bem como ao caos doméstico geral. A pessoa sem PHDA pode sentir que tem de assumir uma quantidade desproporcional de tarefas familiares.

Impulsividade. Se tens PHDA, podes dizer coisas sem pensar, o que pode magoar a outra pessoa. Esta impulsividade pode também levar a comportamentos irresponsáveis e até imprudentes (por exemplo, fazer uma grande compra que não está no orçamento, levando a quezílias por questões financeiras).

Desregulação emocional. Muitas pessoas com PHDA têm dificuldade em gerir as suas emoções. Podes perder a paciência facilmente e ter dificuldade em discutir assuntos importantes com calma, requisitos tão importantes em qualquer relação. Emoções como a raiva são das mais difíceis de gerir, vão do 0 aos 100 em segundos e a outra pessoa pode sentir que precisa de andar a pisar ovos para evitar explosões.

Dicas para melhorar a relação:

Estudem sobre PHDA. Quanto mais aprenderem sobre a PHDA e os seus sintomas, mais fácil será ver como está a influenciar a relação. Compreender a perturbação pode ajudar a pessoa sem PHDA a não levar a peito/como um ataque pessoal alguns dos comportamentos. Para a pessoa com PHDA, pode ser um alívio compreender o que está por detrás de alguns dos seus comportamentos e saber que existe forma de gerir os seus sintomas.

Reconheçam o impacto que o vosso comportamento tem na outra pessoa. Se és quem tem PHDA, é importante reconhecer como os teus sintomas afetam o outro. Se és a pessoa sem PHDA, tem em conta como as tuas críticas e forma de comunicar fazem com que a outra pessoa se sinta.

Separa quem é o/a teu/tua parceiro/a dos seus sintomas ou comportamentos. Em vez de rotulares a pessoa com PHDA como “irresponsável”, reconhece o seu esquecimento e dificuldades em determinadas áreas como sintomas da perturbação. Lembra-te que os sintomas não são traços de carácter nem escolhas. O mesmo também se passa para a pessoa sem PHDA. Reconhece que o incómodo dele/a surge geralmente por sentimentos de frustração, cansaço e stress, não porque a outra pessoa não tem empatia por ti.

Como as pessoas com PHDA se poderão estar a sentir:

Diferente. O cérebro está muitas vezes a mil à hora e as pessoas com PHDA experienciam o mundo de uma forma que os outros não compreendem ou se relacionam facilmente.

Sobrecarregado/a. Manter a vida quotidiana sob controlo exige muito mais trabalho do que os outros percebem. Mesmo que nem sempre seja aparente, a PHDA pode fazer com que alguém sinta que está continuamente a lutar para se manter “à tona”.

Incapazes. Pessoas com PHDA crescem com os outros continuamente a criticá-los e a ter várias experiências de falha. A antecipação da falha novamente, resulta na relutância de tentar e muitas das vezes as pessoas sentem-se também envergonhadas e com baixa autoestima.

Indesejado/a. Os lembretes constantes das outras pessoas em como era mais fácil se eles “mudassem”, reforçam que não são amados como são.

Como a pessoa sem PHDA se poderá estar a sentir:

Indesejado/a ou não amado/a. A falta de atenção é interpretada como falta de interesse e não de distração.

Irritado/a. A zanga e a frustração permeiam muitas interações com a pessoa com PHDA. Por vezes, esta raiva é expressa através da desconexão emocional na relação.

Stressado/a. Muitas das vezes, a pessoa sem PHDA vê-se a assumir muitas responsabilidades da relação para garantir que as tarefas são feitas, o que pode levar à sensação de sobrecarga.

Frustrado/a. Para uma pessoa sem PHDA, pode parecer que os mesmos problemas continuam a voltar repetidamente (uma espécie de efeito boomerang).

Depois de se colocarem no lugar da outra pessoa, é tempo de aceitarem a responsabilidade pelo vosso papel na relação. O progresso começa assim que tomarem consciência das vossas próprias contribuições para os problemas que têm como casal.

Embora os sintomas da pessoa com PHDA possam desencadear um problema, os sintomas por si só não são culpados pelos problemas da relação. A forma como a pessoa sem PHDA responde, pode abrir a porta para a cooperação e compromisso, ou pelo contrário provocar mal-entendidos e conflitos. Se és a pessoa que tem PHDA, também és responsável pela forma como reages às preocupações da outra pessoa. A tua reação pode fazer com que o outro significativo se sinta validado, ouvido ou desconsiderado e ignorado.

Dicas para a pessoa sem PHDA:

  • Incentiva e elogia a pessoa com PHDA quando ele/a progredir e reconhece as conquistas e esforços.
  • Tenta concentrar-te nas intenções da outra pessoa, e não no que ele/a realmente faz. Pode perder a concentração ao ouvir-te, por exemplo, mas isso não significa que não se importe com o que tens para dizer.
  • Diz calmamente à pessoa com PHDA como te sentes. Se as conversas forem uma dificuldade presente na vossa relação, define um horário para falar cara a cara, longe de distrações. Pode ajudar ires tocando na outra pessoa para o/a ajudar a manter o foco ou fazerem pausas quando necessário.
  • O esquecimento e outros sintomas de PHDA não são falhas de carácter ou propositados. Não leves como um ataque pessoal. Evita o julgamento e a repreensão. Em vez disso, coopera com a outra pessoa para a ajudar a lembrar-se. Utilizem lembretes no telemóvel ou post-its pela casa.
  • A divisão de tarefas pode tornar-se num pesadelo. Usem os vossos pontos fortes a vosso favor. Tendo em conta que para a pessoa com PHDA pode ser difícil talvez gerir as contas e manter os pagamentos orientados, assume tu essa parte e deixa a outra pessoa escolher aquilo com que se sente mais à vontade de assumir. Se ambos têm dificuldades numa determinada área, brainstorming de como obter ajuda externa. Por exemplo, se nenhum de vocês for bom com dinheiro, podem pedir ajuda a um contabilista ou aplicações de gestão de dinheiro que facilitam a gestão do orçamento.
  • Respeita a necessidade da pessoa com PHDA de manter determinados itens em determinados locais, a organização é extremamente difícil e pode ser a sua forma de se conseguir orientar.
  • A impulsividade é um sintoma muito comum na PHDA que pode resultar em compras desnecessárias e gastos excessivos que trazem conflitos para a relação. Ajuda a outra pessoa a eliminar catálogos enviados por email e publicidade que possa estar subscrita.
  • Cuida de ti. Faz terapia. Pode ser essencial para te ajudar a perceber quais os teus gatilhos e para descobrires como também gerires as tuas emoções, assim como te pode ajudar a encontrares estratégias para lidares de melhor forma com a outra pessoa.

Dicas para a pessoa com PHDA:

  • Reconhece que os teus sintomas de PHDA estão a interferir na tua relação. Explora as opções de tratamento medicamentoso e faz terapia!
  • Se as emoções fortes inviabilizarem as conversas com a outra pessoa, pede-lhe para te dar algum tempo para te acalmares e te regulares antes de continuarem a conversa. Aprende competências de regulação emocional.
  • Comunica o que sentes, tornar-se mais fácil para o outro lado perceber o que está a acontecer dentro de ti e se te sentes sobrecarregado/a.
  • Comunicar cara a cara sempre que possível. Pistas não-verbais, como o contacto visual, o tom da voz e os gestos, comunicam muito mais do que as palavras por si só.
  • Pede à outra pessoa para repetir. Se a tua atenção da conversa começar a vaguear, diz à outra pessoa e pede-lhe que repita o que foi dito. Torna-se assim mais fácil de te voltares a focar.
  • Identifica os teus gatilhos. Muitas pessoas com PHDA podem experimentar irritabilidade e outras emoções fortes devido à sobrecarga e agitação constante. Se conseguires identificar esses gatilhos, também poderás encontrar formas de te adaptar a eles e encontrares soluções.
  • Se enfrentas desafios com a gestão do tempo, organização e planeamento, a adoção de uma rotina pode ser altamente benéfica. Se souberes o que esperar a cada dia, isso pode melhorar, significativamente, a vossa qualidade de vida.

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