Regular a ansiedade começa por entender que ela não é tua inimiga. Sei que pode parecer estranha esta ideia, porque a ansiedade, quando toma conta de ti, pode ser avassaladora. Ela é uma parte tua, uma resposta do teu corpo a tentar proteger-te de algo que, em algum momento, foi ou pareceu perigoso. O primeiro passo é acolher essa ansiedade, em vez de te lutares contra ela. Porque quanto mais a evitas, mais ela grita.
Quero convidar-te a começar por uma prática simples: para, respira, sente o teu corpo. Onde é que a ansiedade se manifesta? No peito? No estômago? Nos ombros tensos? Fica com essa sensação durante um momento, sem a tentares afastar. Diz a ti mesmo: “Eu vejo-te. Sei que estás aí. Estou aqui contigo.” Este pequeno gesto de atenção e aceitação pode ser profundamente regulador.
Depois, pergunta-te: “O que é que esta ansiedade quer proteger? O que é que está por baixo dela?” Muitas vezes, a ansiedade é um mensageiro, uma defesa que cobre algo mais profundo – talvez um medo, uma tristeza, ou até uma necessidade que não está a ser atendida. Se conseguires aproximar-te disso com curiosidade e gentileza, estás a criar espaço para que a ansiedade diminua.
Se sentires que estás a ser invadido por pensamentos ansiosos, lembra-te de que esses pensamentos não são verdades absolutas; são interpretações do teu sistema nervoso a tentar antecipar o perigo. Tenta desacelerar e trazer-te para o momento presente. Sente os pés no chão, presta atenção ao ar a entrar e a sair do teu corpo, olha em volta e repara no que te rodeia. Tudo isto envia uma mensagem ao teu corpo: “Estou seguro/a agora.”
A ansiedade é, na sua essência, uma tentativa do teu corpo e da tua mente de te proteger. Parece contraintuitivo, não é? Como pode algo tão desconfortável, tão avassalador, estar a tentar proteger-te? Mas é isso que ela faz. O sistema nervoso humano foi desenhado para detetar perigo e reagir a ele, seja ele real ou apenas percecionado. É o sistema de alarme do teu corpo a tentar manter-te seguro/a. E por isso, a ansiedade não é um erro, não é algo “errado” em ti – é uma resposta natural, embora por vezes exagerada ou mal direcionada.

Quando sentimos ansiedade, geralmente há algo por trás dela: uma experiência que foi difícil, uma ferida que ficou por curar, uma necessidade não atendida, ou um medo que o teu sistema nervoso percebe como demasiado grande para lidar sozinho. A ansiedade é como um sinal a dizer: “Presta atenção a mim. Algo precisa de ser cuidado aqui.”
E o que é belo – e o que pode ser profundamente transformador – é que quando te aproximas dela com curiosidade, em vez de a rejeitares ou a tentares eliminar, começas a descobrir o que ela realmente te quer dizer. Começas a perceber que a ansiedade não é o teu inimigo, mas uma parte tua, a tentar proteger algo importante. Talvez a tua sensação de segurança. Talvez a tua dignidade. Talvez o teu coração.
Não temos que calar a ansiedade, mas sim, aprender com ela. Para criar espaço onde possas estar contigo mesmo/a, sem seres dominado/a por ela. Para que possas viver com mais liberdade, mais conexão contigo e com os outros.
A ansiedade pode ser intensa, mas não tem de te definir. Tu és muito mais do que ela. Com tempo, paciência e compaixão, podes aprender a relacionar-te com ela de uma forma diferente. Porque no fundo, a ansiedade não quer que tu sofras – ela só quer que estejas bem. E isso, com o suporte certo, é possível.
Tu mereces sentir-te seguro/a no teu corpo e na tua vida.
Por: Sophie Seromenho
Psicóloga Clínica, Professora e Autora dos livros “Basta de Autocrítica“, “Não é Loucura, é Ansiedade” e vários ebooks.
