Dás por ti a sentir que conheceste alguém que te faz sentir uma ligação como nunca. Parece alguém feito para ti aos teus olhos, mas nem tanto aos olhos da outra pessoa. Então, tomas como missão provar-lhes que são feitos um para o outro. Quando dás por ti, os sentimentos por aquela pessoa intensificam-se sem que tenham sido dadas aberturas nesse sentido pelo outro. Parece uma experiência única e irrepetível. Não parece fantasia?
O teu dia a dia é marcado por reviver os momentos com aquela pessoa, como os olhos dela transmitem-te segurança e o seu toque.
E se te perguntar se esses mesmos olhos ou toque não são semelhantes aos de outra pessoa que conheceste antes?
E se disser que o que sentes pode ser limerência? Este termo foi introduzido pela primeira vez em 1979 pela psicóloga Dorothy Tennov no seu livro: “Amor e Limerência, a experiência de estar apaixonado”. Trata-se de um estado cognitivo e emocional onde se está apaixonado ou obcecado por outra pessoa, sendo isto geralmente experienciado de forma involuntária e envolvendo um desejo agudo de reciprocidade emocional, comportamentos obsessivo-compulsivos e dependência emocional.
Ou seja, é uma forma quase obsessiva de amor romântico, mas focada na reciprocidade de sentimentos. A pessoa que sofre é conhecida como limerente; o indivíduo desejado é chamado objeto limerente.
A limerência também tem influência nos processos neurobiológicos, nos quais, em resposta aos sinais do hipotálamo, a glândula pituitária segrega norepinefrina, dopamina, estrogénio e testosterona. Este “cocktail” produz a euforia de um novo amor e começa a diminuir à medida que as hormonas do apego (vasopressina e ocitocina) entram em ação; isso normalmente ocorre entre 6 e 24 meses após o início de um relacionamento. Da mesma forma que as mudanças no cérebro fazem os viciados em drogas sentirem uma atração intensa por obter e usar drogas, a limerência pode levar os sofredores a extremos em busca do objeto que os afeta.

Existem vários sinais, entre os quais:
- Uma dependência emocional – com necessidade de que os sentimentos sejam recíprocos, com grandes oscilações de humor e ansiedade face à ausência de certeza desta reciprocidade, demonstrando controlo perante o parceiro para provar que sente na mesma proporção;
- Pensamentos intrusivos com cariz obsessivo sobre o parceiro – imaginar, por exemplo, um futuro mesmo com pouco tempo de relação, estando num estado de ansiedade que não permite a construção da relação. Há também o hiperfoco em detalhes, revivendo-os e escrutinando-os, procurando sinais de segurança de que a relação se irá manter, exercendo controlo sobre o parceiro;
- Perda de contacto com o potencial parceiro e foco na fantasia – vive-se numa ilusão do que poderá ser a relação, esquecendo de investir nela para ser uma construção, apressando-se para ser “já”, não satisfazendo as necessidades pessoais em detrimento do preenchimento da relação;
- Idealização do parceiro – tornar-se um foco de admiração inalcançável;
- Medo da rejeição iminente – qualquer sinal de que o parceiro está a ser sufocado ou precisa de espaço é interpretado como sinal de que está prestes a terminar e que a pessoa fica desamparada.
Para sair do ciclo da limerência, é fundamental a pessoa identificar qual a relação que está a tentar reconstruir ou remendar como foco inicial da limerência. Para assim perceber as limitações dessa relação e deixar de a projetar nas relações futuras. A partir disto, há espaço para a pessoa reencontrar-se consigo própria e com os seus objetivos pessoais, quebrando o ciclo.
Por: Lúcia Menezes
Foco em Perturbação de ansiedade, humor, trauma complexo, luto e perturbação borderline e narcisista da personalidade
