Nos primeiros tempos de vida, o bebé não sabe ainda que é um ser separado. Não sabe que existe um “eu” e um “outro”. Vive num estado de fusão com quem cuida e é dessa experiência de presença contínua e suficientemente boa que nasce a possibilidade de vir a sentir-se real.

A tarefa do adulto nesta fase não é ensinar, é ser. Ser alguém que sustenta, que segura no corpo e na mente, que traduz o mundo em gestos pequenos e repetidos. Não se trata de acertar em tudo, mas de estar presente com uma atenção que acolhe o que é enigmático, confuso, às vezes inconsolável.

O choro, por exemplo, não é um problema a resolver! É uma linguagem primitiva que precisa de ser escutada com o corpo todo. Quando não há fome, nem dor, nem frio, o que o bebé chora pode ser só o mundo a atravessá-lo. E o que ele precisa, mais do que respostas certas, é de alguém que não fuja, que não quebre, que aguente o som da sua angústia sem se desorganizar.

A raiva, que já aparece muito cedo, não é sinal de desvio. É sinal de vida. O bebé irrita-se, frustra-se, protesta e precisa de um adulto que não se zangue por ele se zangar. Que compreenda que regular-se é um processo lento, e que o bebé só aprenderá a fazê-lo porque houve, antes, alguém que o fez por ele.

Nesta fase, muito daquilo que os pais sentem não vem apenas do presente, mas também do passado: de como foram segurados, de como lhes responderam, de quanto os conseguiram amar mesmo quando choravam sem razão. Há dores antigas que se reacendem quando se embala um bebé, e há momentos em que não se sabe bem se é o filho que chora… ou se somos nós que, finalmente, estamos a escutar o nosso próprio choro de então.

Por isso, mais do que corrigir ou ensinar, o trabalho principal nesta etapa é o de conter. Ajudar o bebé a confiar que o mundo não desaba. E, para isso, o adulto precisa também de se sentir minimamente sustentado – por outro, por si próprio, por um sentido qualquer de que não está sozinho nesta tarefa.

Na primeira infância, não se educa. Cuida-se, espera-se, aguenta-se. E é nesse terreno invisível que se planta o sentimento de segurança que permitirá à criança, um dia, sair para o mundo sem o medo de deixar de existir.